Eu Conto Um Conto #1

05 março 2011
Postado por Livy


Em "Eu conto um conto", veremos pequenos contos. Para iniciarmos, veremos o conto As Três Estrelas de Ouro de Ana Lúcia Merege.


As Três Estrelas de Ouro

            Quando vamos à aldeia, os camponeses nos lançam olhares enviesados. Não atiram pedras – sabem que revidaríamos, e podem intuir o quanto somos fortes – mas as mulheres cospem de lado ao nos ver passar, e os homens empunham seus ancinhos como se fossem armas.
É o velho medo – o medo que sentiam de nosso pai, quando saía da floresta para negociar suas peças de caça, e até de nossa mãe, que usava um manto de pele em vez do antigo capuz vermelho. Dos dois, naquele tempo, dizia-se que viviam entre os lobos, que se transformavam em lobos e uivavam nas noites de lua, e que a maldição havia sido legada a cada um de nós. Nada mais falso, mas nunca nos deram o direito de explicar.
Acho que foi por isso que tardamos vários anos a visitar a aldeia. Foi para nossa proteção: para ficarmos seguros, como só podíamos estar na floresta, com as árvores e o rio e a cabana de nossos pais. Ali ficávamos com nossa mãe a contar histórias enquanto o pai saía para caçar; ali aprendemos, desde muito cedo, a sobreviver com o que tirávamos da terra; ali teríamos ficado a vida toda, uma vida perfeita, não fôssemos nós sujeitos ao fado de crescer e ver nossos pais envelhecendo. Eles passaram cada vez mais a contar conosco, depois a depender de nós, para a caça e para tudo aquilo que não se podia conseguir na floresta. Assim nos coube enfrentar o medo e o desprezo dos camponeses.
Foi bem difícil no começo, mas aprendemos como agir e nos comportar – como andar entre eles sem sujar as mãos nem o espírito. Sempre que é lua crescente, pomo-nos em marcha, carregando os fardos de peles, os rostos ensombrados pelos gorros que usamos toda vez que deixamos a floresta. Com eles adentramos a aldeia, fingindo não ouvir o que murmuram às nossas costas; com eles caminhamos indiferentes aos olhares de ódio; com eles negociamos as peles, usando o mínimo de palavras, e prendemos à cintura o sal e as facas do pagamento. Quando acaba, damos meia-volta, ansiosos por rever a cabana e os rostos de nossos pais.
Eles ainda vivem, com as graças da floresta. Vivem e esperam por nós, por suas crianças que se apressam pela trilha entre as árvores. Às vezes, no verão, ainda está claro, mas quase sempre é noite cerrada, e então tiramos os gorros, para que o pai e a mãe saibam que estamos a caminho. É bem verdade que seus olhos já não são o que foram outrora. Mas ainda assim conseguem ver de longe a luz em nossas testas, o brilho das três estrelas de ouro, as marcas nunca apagadas do beijo de nossa madrinha.

                                                        

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1 Comentários:

  1. que legal adorei o conto,ele tem uma pegada sobrenatural ,né? adorei!!!

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