[Resenha] O Clone de Cristo, de Jamilla Rhines Lankford

16 março 2014
Postado por Livy

O Clone de Cristo
J. R. Lankford
ISBN: 9788567296081
Tradutor: Laura Vilaça
Ano: 2014
Páginas: 384
Editora: Saída de Emergência Brasil
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
O Clone de Cristo é uma história fantástica sobre uma experiência secreta que pode mudar o mundo: a tentativa de clonar Jesus Cristo a partir do Santo Sudário. O Dr.Felix Rossi é o chefe da pesquisa, um conceituado cientista obcecado com duas perguntas: Será que o tecido do Sudário contém mesmo o sangue de Cristo? E o DNA ainda estará intacto? Apesar do caráter sigiloso do experimento, forças obscuras tentam impedi-lo e Rossi não tem tempo a perder: precisa encontrar uma mulher para gerar a criança. Esta trama policial arrepiante nos leva numa viagem inesquecível da alta sociedade nova-iorquina aos bares irlandeses, das igrejas do Harlem à Catedral de Turim. Uma narrativa bem construída sobre laços familiares perdidos, um homem à procura de Deus, uma mulher em busca de um sentido para a própria vida e uma inesperada história de amor.  

Inicialmente fico muito feliz pela Editora Saída de Emergência Brasil estar trazendo ótimos títulos para publicação, como O Clone de Cristo. Eu gostei bastante da capa do livro, que ficou espetacular (aliás, todas as capas dos livros da Coleção Bang estão maravilhosas). A diagramação e o layout ficaram perfeitos. A tradução de Laura Vilaça ficou ótima. Aguardo ansiosamente pelos próximos lançamentos da editora, inclusive a continuação deste livro.

Bem, por aí já deu pra perceber que eu gostei de O Clone de Cristo. Sim, adorei o livro. É um daqueles livros que se pode dizer que é uma grata surpresa. Confesso que comecei o livro, logo nas primeiras cinquenta página,s achando que não passaria de mais uma daquelas histórias de conspirações e mistérios envolvendo seitas secretas, assassinos a mando da Igreja, corridas para provar isso e aquilo enquanto se tenta manter o couro intacto no fogo cruzado. Bom... Ainda bem que eu me equivoquei.

Por isso, quero dizer aos adeptos (ou àqueles que não gostam tanto assim) do estilo Dan Brown, que O Clone de Cristo é tudo menos “danbrowniano”! Felizmente a escrita de Jamilla Lankford prima por um gosto mais refinado e um bom senso mais original, trilhando um caminho menos conspiratório e saturado de clichês ornados de seitas disso, Igreja daquilo, assassinos fanáticos se flagelando para sustentar o vício e a fé ignorante... Felizmente! (Acho que já vimos quilos disso vindo de Dan Brown ou na esteira dele, para nos entojarmos desse tipo de recorrência literária). 

Lankford nos traz uma roupagem nova a esse estilo literário. Uma feliz ideia, diga-se bem. Pois imprimiu em sua obra a sua própria marca. Ela tem um estilo próprio e o defende bem. Em O Clone de Cristo ela não se preocupa em esmiuçar até a última gota de tinta o tema clonagem e sua consequência ética, religiosa e política. Ela simplesmente expõe bem sutilmente todos os prós e contras que tal projeto envolve, científica ou eticamente, religiosa ou politicamente, e deixa que o leitor decida, dentro de suas crenças e convicções, ou conhecimento, e encontre o caminho que mais lhe agrada.

No livro estão todos os elementos polêmicos do tema: o roubo do sangue de cristo do Sudário; um microbiologista ambicioso; um magnata rico e influente nos meandros políticos tentando descobrir a verdade; políticos mesquinhos e corruptos querendo usar a polêmica do assunto para se promoverem; fanatismo religioso; um repórter farejando o prêmio pulitzer; a posição da Igreja ao saber que o Cristo está sendo clonado; o interesse dos líderes religiosos de outras seitas em querer desmascarar essa suposta farsa... e muito mais.

Um outro detalhe interessante do livro é que Lankford não se preocupou em se aferrar apenas no gênero thriller de suspense e mistério. Isso porque o seu livro não é apenas isso. Todos os elementos de um thriller estão lá, embrionários, apenas. Ela não os fertiliza, não os enriquece e não os faz evoluírem de imediato, preferindo gotejar-nos com eles a medida em que a trama vai evoluindo. O suspense está presente, por conta das operações do Dr. Rossi, do interesse do magnata Brown e das investidas do repórter Jerome Newton, da possibilidade desse ser ou não o clone de Cristo, das prováveis traições que a polêmica por trás da clonagem pode suscitar, e mais ainda. O mistério fica justamente por conta de se o Dr. Rossi de fato conseguiu uma amostra válida de DNA e se esse DNA é de fato o do Cristo (há quem sustente, ainda hoje, que o Sudário de Turim não é verdadeiro). E a ação, propriamente dita, existe sim. Ele ocorre da metade do livro para o final, ou no terceiro terço do livro numa das melhores perseguições que já li num livro até o presente momento.

Um outro ponto relevante na obra de Lankford é que ela se preocupou, fundamentalmente, em mostrar o lado humano de sua história. Os dados científicos são exatos e fruto de uma exaustiva pesquisa. No entanto, sem exageros de nomenclaturas de difíceis e excessivamente detalhadas. Assim como os seus personagens. Eles são tão simples e humanos que se poderia dizer que são a caricatura da humanidade que vivemos hoje em dia.

A história de O Clone de Cristo segue, com algum analogismo, em paralelo com a história bíblica de Jesus Cristo, mais ou menos como ela ocorreu há dois mil anos. Claro, vejam bem, ela não deixa isso explícito no desenrolar da trama, e nem mesmo recria, com exatidão, todos os acontecimentos que envolveram a Natividade de Jesus. Mas o paralelismo é inevitável, já que o que está sendo clonado é o DNA de Jesus. Desta forma acabamos crendo que, como essa é a suposta Segunda Vinda, a gestação e o nascimento se cercará de fenômenos e acontecimentos estranhos, pontuados de alguma mística.

Além do que, O Clone de Cristo traz à tona um tema bastante polêmico. O Sudário de Turim por si só já é um assunto controverso e polêmico. A clonagem de seres vivos, bem como outros, como aborto, células-tronco, homossexualismo, contracepção, entre outros, ainda geram toneladas de material impresso e milhares de horas em documentários. O Clone de Cristo não poderia deixar por menos. Ele é sim um livro polêmico pelo tipo de tema que aborda. No entanto, Jamilla Lakford não o cria. Ela simplesmente  utiliza esse elemento como pano de fundo para desenvolver a sua história.

Porque O Clone de Cristo é um romance que versa, acima de tudo, sobre a amizade, lições de humildade, renúncia, fé e amor, entre outras coisas. O livro começa um pouco vagaroso, seguindo os passos do Dr. Rossi roubando o DNA de Jesus (ou que se supõe que seja). No entanto, a medida em que nos internamos na leitura, a narrativa vai ganhando corpo e o suspense (por conta da clonagem e do sucesso ou não da mesma) vai nos enredando e carregando-nos para um final eletrizante, dramático e emocionante. Certamente foram as cem últimas páginas mais dramáticas e exasperantes que eu já li em um livro. E a única violência que você encontrará no livro é o parto, propriamente dito, feito durante uma fuga alucinante pelas ruas apertadas de Nova Iorque.

Acreditem, vocês não ficarão indiferentes ao drama criado por Jamilla Lankford. E tenho certeza de que muitos que olham meio de esguelha ou de cenho franzido para o livro vão mudar de atitude e pensar nele de forma diferente após lê-lo. Jamilla Lankford, antes de querer causar polêmica, coloca na pauta temas controversos que, por conta da Igreja e de outros segmentos religiosos e sociais, ainda são motivo de calorosas discussões ao redor do mundo.

Polêmico ou não, o importante é que O Clone de Cristo é um livro fascinante que agradará em cheio. Eu mesma adorei. Li, e futuramente estou pensando em reler (depois de liquidar minha imensa lista de leitura) e aguardo ansiosamente pela continuação. Magie caiu no meu gosto e se tornou uma de minhas personagens favoritas. O estoicismo e a fé dela me enebriaram de tal maneira que é difícil não vê-la como a alma desse livro e, porque não dizer, o alter ego de Jamilla Lankford. 

Também gostei muito da personagem Frances, a irmã super protetora. Odiei aquele facínora do Browm e Jerome Newton é o lado negro do jornalismo. Adeline é uma sem graça, mas ela tem os seus motivos. Sam, às vezes, é um saco, mas ele está fazendo bem o seu papel. O Dr. Félix Rossi é um gênio, sem dúvida, e suas atitudes ora caminham pelo aterro da arrogância, ora resvalam no beiral do precipício da ganância pura e simples, mas, na maioria das vezes, ele consegue contornar esses obstáculos e se mostrar uma pessoa de bom coração.

Das muitas lições que depreendi do livro, a mais importante é que em dois mil anos as coisas não mudaram absolutamente nada. O ser humano continua agindo por interesses mesquinhos e avaro, colocando Deus ao seu serviço e transformando as religiões nos vendilhões do templo que Jesus, se aqui estivesse, teria, mais do que naquela época, sérios problemas em expulsá-los.

Leia de mente aberta, medite com o coração, tire suas próprias conclusões, odeie ou se apaixone... é para isso que os livros existem. Para incendiar o nosso imaginário. Quem poderá dizer, ou mesmo julgar, os caminhos que Deus escolhe para realizar as suas obras? Quem poderá mesmo dizer se o Dr. Rossi não está agindo, ele e todos os que estão envolvidos com a clonagem, sob os desígnios divinos? Recomendo!

Comentários via Facebook

4 Comentários:

  1. Nossa Livy, que resenha maravilhosa de O Clone de Cristo!
    Assim que vi o lançamento me interessei muito e até li o primeiro capítulo para saber um pouco mais da história e qual foi a minha surpresa ao saber que você já tinha lido e a resenha está aqui?
    Fico muito feliz por você classificá-lo como um gênero diferente, sem os clichês policiais e de pesquisa e não parecido com Dan Brown, embora eu goste muito da escrita do autor!!!
    Eu quero muito ler esse livro!
    Abraços!!! Blog Saphiy

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  2. Uau. É bem ousado. Mais livros assim, deviam ser escritos. Afinal, a literatura tem que ousar, e buscar novos jeitos de imaginar a realidade. Ótima resenha.

    Jadson L Ribeiro
    www.jadsonlribeiro.blogspot.com

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  3. Oi Livy, este livro tem me chamado muita atenção, não só pelo título que por si só já faz isso muito bem, mas pelo enredo do livro. Espero poder ler em breve.
    Bjs, Rose

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  4. Muito bom um livro que aborda temas as vezes esquecidos e deixados de lado, gostei muito de como você falou sobre o que podemos esperar deste livro. Muito obrigado pela dica.

    Abraço,
    Diego de França
    Leitor Sagaz | Participe do Top Comentarista | Grupo Amantes da Literatura no Facebook

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