[Resenha] Olhar Mortal, de Fergus McNeill

07 maio 2014
Postado por Livy

Olhar Mortal
Fergus McNeill
ISBN:  978-85-04-01886-8
Tradução: Santiago Nazarian
Ano: 2014
Páginas: 327
Editora: Companhia Editora Nacional
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Nunca cruze olhares com Robert Naysmith. Por trás de um sorriso simpático e um terno bem cortado, há um predador examinando cada detalhe, estudando a rotina de sua presa, descobrindo o melhor momento para atacar. Um homem meticuloso, que segue regras rígidas para cometer seus assassinatos. Um homem acima de suspeitas, com um bom trabalho, uma linda namorada, uma vida confortável. Do outro lado do tabuleiro está o detetive Harland, um policial em luto pela morte de sua esposa, com uma raiva interna que se choca diretamente com a frieza e indiferença de seu adversário. Enquanto contorna a burocracia de seu trabalho, ele precisa seguir pistas que ligam uma vítima à outra, e que podem determinar se a próxima sobreviverá ou não.

Primeiramente, quero parabenizar a Companhia Editorial Nacional pela ótima qualidade gráfica do livro. Capa, diagramação e layout estão ótimos; o que denota a preocupação e o zelo da editora em nos apresentar um trabalho final de boa qualidade.

Quanto ao livro em si, Olhar Mortal é o primeiro livro de Fergus McNeill, um desenvolvedor de jogos para videogame que decidiu se aventurar na carreira de escritor. Esse é seu primeiro livro de uma série policial protagonizada pelo detetive de polícia londrino Harland Graham. 

A narrativa de MacNeill é minuciosa e detalhista. Ele não poupa tinta e nem papel para descrever as cenas em que o assassino em série, Robert Naysmith, executa os seus crimes. O que só faz por realçar o lado obsessivo do criminoso, cheio de detalhes e estratagemas, que articula nos mínimos detalhes os passos que executa para enredar e matar as suas vítimas. Do meu ponto de vista, esse é o melhor de Olhar MortalNaysmith já pode se outorgar o direito de ser um dos assassinos em série mais frio e insensíveis da literatura.

Na outra ponta da corda temos o detetive de polícia Harland, e sua equipe de investigação. Os crimes em série que assombrarão os seus dias e noites caem como que de paraquedas em seu colo. Um pequeno item, uma chave de porta, encontrada numa das vítimas acaba ligando esse assassinato com um outro, ocorrido recentemente em outra localidade. Seguindo essa e outras pistas que redundando em becos sem saída, forçado a competir com um detetive rival que quer tirá-lo da jogada a qualquer custo e tendo seu chefe bufando em seu cangote a cata de resultados imediatos, Harland terá que se ocupar integralmente com a solução desse desafio: o assassino não deixa nenhuma pista na cena do crime; seu modus operandi é perfeito demais, meticuloso demais para ser rastreado; a escolha das vítimas parece não obedecer a um esquema ou critério específico, já que o assassino parece não fazer nenhum tipo de distinção entre elas; todas as mortes são completamente diferentes umas das outras... exceto pelo fato de que os corpos são abandonados em um leito de rio.

Além de uma boa equipe de investigação trabalhando consigo, Harland tenderá a contar muito mais com a sorte para conseguir prender o assassino do que com as parcas pistas que coletará ao longo de uma trilha de sangue e corpos, deixado por aquele que provará ser a sua nêmesis, daqui por diante.

Olhar Mortal é um bom livro. Não é, de longe, o melhor do gênero. Infelizmente tem falhas, e, talvez, por ser o primeiro livro de Fergus, haja algumas coisas que precisam ser aprimoradas em sua narrativa. A começar pelos excessos descritivos das cenas em que Naysmith se prepara para seu próximo assassinato. Creio que quatro ou cinco páginas dessa descrição, lá nos primeiros capítulos, já é suficiente para termos uma ideia do seu modus operandi; mas, tornar isso uma rotina para todas as vítimas ao longo do livro, fica um tanto repetitivo e entediante demais. Com isso, Fergus acaba por minimizar a participação do detetive Harland que, a meu ver, está mais para um coadjuvante do que  protagonista, propriamente dito.

Claro que, desta forma, Naysmith rouba todas as cenas, do começo ao fim do livro. Ele é daquele tipo de vilão, como Darth Vader em Star Wars que,  ao entrar em cena nos faz prendemos a respiração porque sabemos que ele fará algo terrível em seguida. É o clássico vilão que você odeia ao mesmo tempo em que ama.

Isso ocorre o tempo todo com Robert Naysmith. Você passa o livro inteiro odiando e amando esse cara, porque ele é o típico psicopata bonitinho, certinho, bom amigo, bom companheiro, amoroso, leal, divertido, educado, elegante, entre outras coisas mais, e, de quebra, é um sujeito frio e perverso que não tem um pingo de compaixão dentro de si quando decide eliminar alguém. Diga-se de passagem que ele poderia ser um dos seus vizinhos, ou aquele colega de trabalho que você considera boa praça!

Pois é. Quantos sujeitos assim nós vemos surgirem todos os dias nos noticiários dos telejornais? Aos montes, não é mesmo? Robert Naysmith é uma espécie de ícone de uma geração de psicopatas que, desde Norman Bates, tem surgido todos os dias nas grandes metrópoles do mundo inteiro, muitas vezes matando pura e simplesmente só pelo prazer de matar.

O que é uma característica comum entre os sociopatas, pois eles escolhem as suas vítimas ao acaso. Calhou de ser essa ou aquela pessoa, e lá estão eles no encalço, rastreando-as como predadores numa selva. São tenazes e implacáveis, não tenha dúvida sobre isso. E quando as alcançam, são igualmente violentos. Matam, geralmente, de forma bárbara, expondo as vítimas à humilhação absoluta. E Robert Naysmith não foge à regra, é claro.

Olhar Mortal é um bom livro de ficção policial. No entanto, repito, por ser o primeiro livro de estreia de Fergus, o mesmo peca em revelar o assassino logo no prólogo. Isso, francamente, estraga um pouco (senão em tudo) o mistério e o suspense que poderíamos digerir ao longo da leitura ao tentar descobrir por antecipação quem é o assassino. Desta forma, sobra-nos apenas o consolo de roer o suspense que Fergus nos relega ao tentar descobrir qual é a real motivação que impele Naysmith a cometer os seus crimes e, de lambuja, se Harland será bem-sucedido ou não em levar justiça as vítimas desse maníaco.

O final, apesar de aparentar ser uma brecha para uma continuação, me decepcionou um pouco. Porém, fortaleceu minha opinião de que Robert Naysmith é, de fato, o ponto alto de Olhar Mortal. Ele, como os grandes vilões do cinema, rouba a cena e dá um show de interpretação psicopática. Se o autor souber aproveitá-lo bem, ele poderá ser um nome a ser lembrado por muito tempo. 

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4 Comentários:

  1. A capa tá linda! Gosto de suspense, ficção policial, mas como vc falou ele não deveria ter revelado o assassino eu acho que assim acabaria todo suspense, mas... parece ser um livro que vale a pena ler.

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  2. Gostei da resenha Livy. Não conhecia o livro, mas por se tratar de ficção policial já me deixou bastante interessada. Uma pena que faltou um pouco mais de desenvolvimento em alguns aspectos, mas como é uma obra de um autor estreante é algo compreensível. Beijo!

    www.newsnessa.com

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  3. Eu não conhecia, mas parece ser bom!

    Bjs

    http://nandaaflordapele.blogspot.com.br/

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  4. Muito boa a resenha, como todos os livros tem suas falhas é normal, a história e a aparência do livro são incríveis.

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