[Resenha] Quarenta Dias Sem Sombra, de Olivier Truc

23 julho 2014
Postado por Livy

Quarenta Dias Sem Sombra
Olivier Truc
ISBN: 978-85-8419-001-0
Tradução: Cristina Cupertino 
Ano: 2014
Páginas: 406
Editora: Tordsilhas
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Aldeia de Kautokeino, Lapônia, 10 de janeiro. A última noite polar. O sol voltará a brilhar após quarenta dias ausente. O povo está reunido na importante cerimônia de retorno de um tambor sagrado, que fora recentemente trazido à vila por um velho explorador francês. Mas a cerimônia não é levada a cabo. O tambor é roubado, causando uma intensa comoção entre os locais. A peça, acredita-se, permitia aos xamãs se comunicar com o mundo dos mortos. Entre os suspeitos do roubo, está um grupo extremista que disputa terras com os lapões, e protestantes fundamentalistas que se opõem ao renascimento da antiga religião. Pouco depois, um criador de renas é encontrado morto e mutilado no meio da neve, tratado como uma carcaça. A investigação de ambos os crimes é liderada por Klemet Nango e Nina Nansen, membros de uma unidade especial da polícia. O desenrolar da investigação revela a Lapônia, um lugar aparentemente tranquilo, como uma terra de conflitos e mistérios ancestrais, cuja tradição lhe confere características únicas na moderna Europa. 

Quarenta Dias Sem Sombra é um excelente thriller policial, e eu tenho que parabenizar a edição do livro, começando pela que ficou bem melhor que as edições francesa e inglesa. Aliás, a Editora Tordesilhas está fazendo um excelente trabalho editorial. Todos os livros policiais que eu li estão bem acima da média, a maioria de autores pouco conhecidos, que nada ficam a dever para autores consagrados nesse gênero literário.

Quanto ao livro, tenho a dizer que o mesmo me encantou. Da primeira a última página, o livro foi surpreendente e empolgante. Isto porque Olivier Truc escreve muitíssimo bem. Sua escrita é impecável e cativante. Cada detalhe acerca dos personagens e, principalmente, sobre as localidades por onde transitam, é descrita com esmero e fidelidade. Assim como a perfeita ambientação local, as personagens são construídas observando-se os costumes e o modo de vida dos Lapões, os autóctones do norte da Noruega, também chamados de samis.

A ambientação do livro é tão perfeita que eu tive a curiosidade de vasculhar no Google Earth acerca da Lapônia (amo pesquisar, já perceberam?). Mais precisamente, a cidade de Kautokeino, onde se passa boa parte da narrativa. A forma como Olivier descreve o lugar, seus habitantes, os costumes samis e o rigoroso inverno chamaram a minha atenção e, qual não foi a minha surpresa, ao visitar Kautokeino virtualmente, eis que lá estavam todos os detalhes descritos pelo autor. Me encantei tanto com a cidade e a valentia daquele povo calejado pelas adversidades da vida e do clima, vivendo num lugar tão adverso do qual estamos acostumados aqui nos trópicos, que a leitura do livro ficou ainda mais prazerosa. Além do mais, também, isso me fez me simpatizar ainda mais com Olivier Truc, pois ele se preocupou em transcrever para o papel não somente as suas ideias para um romance policial, mas toda a luta e o sofrimento de um povo marginalizado e discriminado por conta de suas origens e de suas crenças.

Na Lapônia encontramos dois tipos de samis: os tradicionalistas, que estão arraigados as suas tradições de raízes, herdadas oralmente dos seus ancestrais, que vestem-se de forma “folclórica” e colorida, e criam suas renas de forma bem artesanal, entre outras coisas; e os que aderiram ao modo mais “civilizado” do mundo moderno e se converteram ao protestantismo, o laestadiano, fundado por Lars Levi Laestadius, no século XIX (um ramo do luteranismo que prega um modo de vida cristão puro e verdadeiro contra os falsos e pseudos cristãos, e está presente em 23 países, inclusive no Ártico).

Kautokeino é uma cidadezinha de 9 mil quilômetros quadrados, com pouco mais de 2.900 habitantes, que fica no condado de Finnmark, no norte da Noruega. Lá as temperaturas no inverno ficam sempre abaixo de zero, com noites tão escuras que o farol dos carros mal conseguem iluminar alguns poucos metros adiante. Os lapões que são os nativos da região, têm em Kautokeino o seu centro cultural sami, sendo o jöik (uma espécie de poema cantado muito antigo; como os cantados pelos bardos) e a criação de renas a sua cultura básica e ancestral. No verão, quando o sol impera ininterrupto, as temperaturas na região sobem até os trinta graus acima de zero. Os lapões, bem como as suas renas, fazem a transumância, ou seja, deslocam-se para a costa onde o clima é mais ameno, fugindo dos mosquitos que enxameiam a cidade por conta dos milhares de lagos que a cercam.

Já pensou em viver num lugar onde em dada época do ano não se vê a noite, pois o sol brilha constantemente por meses, e noutra não se vê a luz do dia? Pois é, em jamais conseguiria viver num lugar assim. Mas tem gente que vive. E Quarenta Dias Sem Sombra conta a história dessa gente corajosa e admirável.

Mas não é só de boa ambientação que este livro é feito. Os personagens do livro são igualmente fascinantes. Adorei Klemet Nango e Nina Nansen. Os dois formam um par perfeito, com bom entrosamento, e o tempo todo torci para que eles ficassem juntos. Os dois são membros da Polícia das Renas, a Patrulha P9, em Kautokeino. O que quer dizer que eles não são policiais investigativos. A função deles é patrulhar os acampamentos samis, onde os camponeses pastoreiam as suas renas (pois cada criador tem a sua área específica para pastorear as renas, e a invasão de um criador em área de outro é considerado crime). Mas, com o surgimento de dois crimes locais, um envolvendo a cultura sami e o outro um criador de renas, a dupla, a pedido do “xerife” Tor Jenssen, acaba se envolvendo na investigação chefiada pelo pedante e asqueroso investigador Rolf Brattsen.

A investigação do roubo de um tambor xamânico sami e o assassinato de um criador de renas, sob circunstâncias misteriosas e pouco comuns naquela comunidade, farão com que Klemet e Nina lutem não somente contra a adversidade do clima extremo e rigoroso do inverno ártico, mas, também, se defronte com personagens de difícil trato, como: Karl Olsen, John Henrik, Aslak Gaupsara, Mattis Labba, Olaf Renson, André Racagnal, entre outros. Mas, igualmente, encontrarão apoio e lealdade em personagens adoráveis, como: Nils Ante, Hurri Manker, Berit Kutsi, Henry Mos, entre outros.

Por mais simples e banal que possa parecer o roubo de um tambor xamânico e o assassinato de um criador de renas, a trama nos leva para uma história bem mais complexa e profunda. O roubo e o assassinato são apenas um pano de fundo sobre o qual Olivier Truc tece, ou pinta, um quadro rico em formas e detalhes primorosos. Há histórias e situações paralelas, vividas por algumas das personagens, que avultam e se intercalam ao longo da narrativa, influenciando direta ou indiretamente na investigação e na conclusão da mesma. Destes dramas em particular, a da esposa do Aslak, Aila, e a de Berit me emocionaram muito. O de Klemet também caiu na minha simpatia. O desfecho, em que todas essas linhas paralelas, essas pontas soltas, se cruzam e se unem, em um único nó, ou ponto, é sensacional. E isso tudo sob uma tempestade de inverno de quarenta graus abaixo de zero.

Os métodos investigativos de Klemet e Nina não são diferentes do que já vimos em outros romances do gênero. O que torna isso mais interessante em Quarenta Dias Sem Sombra são as adversidades criadas pela cultura local, o envolvimento de certas pessoas e as pistas quase escassas que parecem não levar a nada. Há muitas pontas soltas, e Klemet está obstinado a descobrir o culpado, ou os culpados, pelos dois crimes. Mesmo que para isso ele tenha que pôr a sua vida, e a de sua parceira, em risco.

O mistério e o suspense, por trás do roubo e do assassinato, se mantém até as últimas páginas, com uma gama de suspeitos que vão se enfileirando  na berlinda a medida em que a dupla policial reúne as peças do quebra-cabeça, as quais estão espalhadas por várias regiões, inclusive na França. Nesse meio tempo, vamos nos defrontar com traições, corrupção, dogmatismo, racismo, inveja, ganância, radicalismo, amor, renúncia e fé.

O mais legal de tudo é que Olivier Truc soube casar com perfeição o retorno do sol à B, em fins do inverno, com o clímax crescente da investigação policial. Inicialmente, no primeiro dia de aparecimento do sol (11 de janeiro), o dia não dura mais do que 27 minutos. Gradativamente, esse tempo vai se estendendo, passando o dia a durar pouco mais de cinco horas, lá pelos últimos capítulos. E, da mesma forma, o clímax da trama vai se expandindo e ficando cada vez mais dramático até o seu desfecho final que, a meu ver, é um tanto quanto triste.

Alguns leitores podem até achar que o final do livro foi abrupto, ou que ficou faltando mostrar o depois. Não sei. Eu, particularmente, pelo tudo que li até ali, achei ótimo. Casou perfeitamente com o drama vivido por aquelas personagens. Dramas esses, vejam bem, que estão entrelaçados por suas infâncias ou por seus ancestrais. Mesmo assim, algumas pessoas podem achar que Olivier Truc ficou devendo alguma informação adicional aqui. Certamente, da forma como vejo, esse desfecho é um salto inequívoco para um novo livro com a dupla Klemet Nango e Nina Nansen. Aguardemos, ansiosamente, é claro!

Quarenta Dias Sem Sombra é um excelente thriller policial bem diferente de tudo o que eu li até agora. Só encontrei bons motivos para elogiá-lo e tê-lo em minha estante, entre os melhores do ano. 

Comentários via Facebook

13 Comentários:

  1. Eu ainda não conhecia Quarenta Dias Sem Sombra.
    O título e a capa me chamaram muito a atenção.
    E além de ser um thriller policial - pelo visto, muito bom - ainda tem todo o aspecto histórico, geográfico e cultural. Algo que preso muito em um livro!
    Fiquei curiosíssima!

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  2. Já gostei só em saber que é um Thriller policial, sua resenha chamou muito a minha atenção, a história parece ser realmente muito boa, e sem contar que relata uma história real dos habitantes que vivem nesse país. Fiquei muito empolgada, e com certeza tentarei ler ;)

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  3. entendo a proposta, mas é uma daqueles livros que não me são muito próximos!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  4. Amo o gênero e tenho ficado encantado com o trabalho da Tordesilhas. Espero, em breve, poder ler esse livro, Sem dúvida, tenho certeza que vou amar.
    Adorei a sua resenha.

    M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de julho

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  5. Oie Livy =)

    Não conhecia o livro, e como você sabe esse não é um dos meus gêneros favoritos. Porém tanto a sinopse como a sua resenha me deixaram com aquela pontinha de curiosidade. Quem sabe eu consiga deixar o medo de lado rs...

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary

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  6. Oie Livy
    não conhecia essa editora e o livro.
    Eu AMO thriller policiais. Inclusive, atualmente estou lendo um rs
    E amei o fato da ambientação trazer um diferencial em questão da ligação com a trama. Genial. Fora que essa capa é linda. Sua resenha foi tão empolgante, que já me senti amando o livro.
    Certeza que colocarei na minha listinha de desejados.
    bjos
    www.mybooklit.com

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  7. Gostei da resenha Livy. Não conhecia o livro, mas me pareceu ser um thriller policial de primeira. Curto muito esse estilo de livro. Beijo!

    www.newsnessa.com

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  8. Oiee ^^
    Não sou fã de romances ou thrillers policiais, mas "Quarenta dias..." me deixou suuper curiosa. Essa foi a primeira resenha que eu li dele, mas ver tantos elogios já na primeira resenha o fez ir para a minha listinha de desejados :)
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  9. Olá!

    Fiquei com vontade de ler esse livro depois de ler a sua resenha. Eu adoro esse tipo de livro que mostra uma boa ambientação. Isso só ajuda a enriquecer a obra. O próprio título do livro já tem um forte impacto.

    Mais uma vez, uma ótima resenha. Parabéns!

    Beijos!

    http://ymaia.blogspot.com.br/

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  10. Oi Livy! Eu amos livros do gênero e sempre vejo aqui no seu blog os lançamentos da Tordesilhas, não preciso nem dizer o quanto estou empolgada para ler cada um deles. Este é muito diferente, especialmente pelo cenário, eu não lembro de ter lido nada passado neste local, e quanto ao crime, conforme fui lendo a resenha estava imaginado o que havia de tão extraordinário neste roubo, mas aí você fala que há tanto por trás de tudo, que percebi como a trama é densa e complicada. Excelente resenha.

    Bjos!!
    Cida
    Moonlight Books

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  11. Gostei da resenha e da capa, mesmo esse não sendo o meu gênero favorito, parece ser bem legal a historia haha.
    http://luludeluxemburgo.blogspot.com.br/

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  12. Já é a terceira resenha do seu blog que leio e me interesso pelo livro e por incrivel que pareça os três são beeeeem parecidos, inclusive a capa e a neve como "tema".
    Sangue na neve, que aliais comprei e estou esperando chegar. Irmã, que eu fiquei muito interessada e agora esse.
    Amo thrillers policiais, suspense.
    Ai meu bolso, rs :}

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  13. Achei essa resenha ao procurar algo sobre o livro que terminei de ler. Eu preciso que alguém me ajude a entender a história do Klemet edo Aslak. Não consegui pegar o motivo do receio do Klemet em relação ao Aslak. Pode me ajudar a entender? E pq ele tinha que ser preso? O que ele fez? Socorra- me. Hehe

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