[Resenha] As Mentiras de Locke Lamora, de Scott Lynch

01 outubro 2014
Postado por Livy

As Mentiras de Locke Lamora
Scott Lynch
ISBN: 978-85-8041-249-9
Tradução: Fernanda Abreu
Ano: 2014
Páginas: 463
Editora: Arqueiro
Pontuação: ♥ ♥ ♥  
() Favoritado!
O Espinho é uma figura lendária: um espadachim imbatível, um especialista em roubos vultosos, um fantasma que atravessa paredes. Metade da excêntrica cidade de Camorr acredita que ele seja um defensor dos pobres, enquanto o restante o considera apenas uma invencionice ridícula. Franzino, azarado no amor e sem nenhuma habilidade com a espada, Locke Lamora é o homem por trás do fabuloso Espinho, cujas façanhas alcançaram uma fama indesejada. Ele de fato rouba dos ricos (de quem mais valeria a pena roubar?), mas os pobres não veem nem a cor do dinheiro conquistado com os golpes, que vai todo para os bolsos de Locke e de seus comparsas: os Nobres Vigaristas. O único lar do astuto grupo é o submundo da antiquíssima Camorr, que começa a ser assolado por um misterioso assassino com poder de superar até mesmo o Espinho. Matando líderes de gangues, ele instaura uma guerra clandestina e ameaça mergulhar a cidade em um banho de sangue. Preso em uma armadilha sinistra, Locke e seus amigos terão sua lealdade e inteligência testadas ao máximo e precisarão lutar para sobreviver. 

Sensacional. Impressionante. Original. Divertido. Apaixonante. Leiam! O melhor livro de aventura e fantasia do ano. Supera tudo o que eu já li até hoje, do gênero. As mentiras, aventuras, trapaças, loucuras e desventuras de Locke Lamora eleva o gênero fantasia a um novo patamar de criatividade e originalidade há muito tempo não visto. Scott Lynch é um excelente contador de histórias. O sujeito naceu para ser escritor. Sua mente criativa é impressionante e, com toda sinceridade, não ficaria nada surpresa se ele viesse a se tornar um dos grandes expoentes desse gênero literário.

A série Nobres Vigaristas foi lançada originalmente em 2006, com As Mentiras de Locke Lamora, e já ganhou outros dois volumes já publicados: Red Seas Under Red Skies (Marés de Sangue) de 2007 e The Republic of Thieves (República de Ladrões) de 2013. Tanto o segundo volume quanto o terceiro tiveram ótima aceitação dos leitores. Segundo o Goodreaders, Marés de Sangue recebeu 4,21 estrelas de um total de 38 mil votantes, e o terceiro volume da série já contabiliza 4,20 estrelas de 18 mil votantes. Sendo as pontuações máximas entre muito bom e excelente. O que, a meu ver, para um escritor estreante, é uma estupenda pontuação; ou seja, mérito reconhecido e garantido. Para nós, sinônimo de boas obras futuramente.  

Mas você deve estar se perguntando: “o que esse livro tem assim de tão interessante para merecer tantos elogios e fazer de Scott Lynch um escritor promissor e admirado em todo o mundo?” Eu vou responder a essa pergunta com cinco boas razões que considero fundamental para se ler a série Nobres Vigaristas:

1- NARRATIVA: 
Gente, o Scott Lynch não escreve, ele pinta; a descrição de Camorr e dos seus costumes, bairros, guildas, gangues, política, miséria e realeza, além da religião, política e dos personagens é um registo criativo, sutil e detalhado, que nos causa a sensação de estarmos diante de um quadro renascentista - vibrante em cor, textura, formas e luminosidade. Ao mesmo tempo que belo, elegante e colorido, a sua narrativa revela-se sombria e apavorante. Camorr é uma excelente mistura de medievalismo, renascentismo e steampunk. Os habitantes de Camorr vivem a realidade dos Nobres, em suas cinco torres de vidro de mais de 200 metros de altura, e a miséria da população marginalizada nos bairros dominados por ladrões, assassinos, prostitutas e barões do crime organizado. Nos festivais, a diversão preferida da população é o handebol violento e a luta de gladiadores sobre águas infestadas por tubarões e polvos gigantes. Os nomes dos lugares são bem sugestivos e, em alguns casos, engraçados, como: Cinzacai, Palácio da Paciência, Vidrantigo, Lar do Tombo, Tumba Flutuante, entre outros.  

2- ORIGINALIDADE: 
Ao invés de falar de dragões, gnomos, orcs, trolls, legiões de globins e sabe-se lá mais o quê, tão comuns na literatura de fantasia, Lynch decidiu recriar o gênero. Sua história atemporal tanto poderia se passar num passado remoto quanto num futuro improvável, onde humanos se apoderaram de construções e técnicas de alquimia e bruxaria de seres não-humanos (ou alienígenas) chamados ancestres, e, de quebra, inseriu guildas de ladrões, bruxos assassinos, tubarões e polvos gigantes, aranhas de sal, entre outras coisas, e apimentou tudo com uma boa pitada de conspiração, assassinatos, trapaças, traições, espionagem e, é claro, tudo bem regrado com doses generosas de ação, aventura, mistério e suspense. 

3- PERSONAGENS: 
Não é só de Locke Lamora que o livro é feito. Além do ótimo Lamora, um dos maiores trapaceiros, vigarista e ladrão de coração mole que já vi, temos ainda a trupe dos Nobres Vigaristas: Jean Tannen, o habilidoso guerreiro, os irmãos gêmeos Sanza, Calo e Galdo, e o jovem Pulga. Padre Correntes, o Sacerdote Cego da Casa de Perelandro, é o líder do grupo na fase infanto-juvenil dos Nobres Vigaristas; o Casal de nobres Salvara, vítimas do maior golpe aplicado por Lamora; Dona Vorchenza, que é tudo menos uma simpática e inocente velinha da nobreza; Capa Barsavi, o temível e implacável rei das gangues de ladrões de Camorr; as irmãs gêmeas assassinas; o Aranha, um misterioso agente secreto dos Meia-Noites, sob as ordens do Duque de Camorr; o Rei Cinza, temido e apavorante assassino de ladrões e seu bruxo Falcoeiro, entre outros, muitos outros personagens adoráveis, e odiosos, claro.

Além dos Nobres Vigaristas, obviamente, me simpatizei muito com Doma Vonchenza, o casal de nobres Salvara, Correntes, Barsavi e sua filha Nazca, e com o bom e humilde Ibelius (que só aparece nos capítulos finais). E claro, os meus favoritos são Locke Lamora e Jean Tannen.  

4- HISTÓRIA: 
O livro começa com Lamore ainda criança, no tempo passado, quando cai nas mãos do Aliciador, um sujeito sujo, rude e vigarista, explorador de crianças, e logo passa, no primeiro capítulo e já no momento presente, para Lamora adulto, agora líder dos Nobres Vigaristas. E desta forma, Lynch intercala a narrativa do tempo presente com o do passado, chamado “Interlúdio”, onde nos dá a conhecer as origens dos Nobres Vigaristas. E essa intercalação de tempos não interfere no desenvolvimento da história; pelo contrário, os acontecimentos do grupo de jovens Nobres Vigaristas encontra ressonância nos capítulos em que os encontramos adultos. Os atos do passado ilustram os porquês do presente. 

Quanto aos Nobres Vigaristas, esses não são ladrões comuns; pois não se contentam apenas em roubar poucas moedas, como a maioria dos ladrões em Camorr, sob as ordens de Capa Barsavi. Graças a Correntes, eles se especializaram em aplicar vultosos golpes na nobreza. E é justamente um desses golpes, o do casal de Doms Salvara, que o bando de Lamora vai se defrontar com o maior desafio de suas vidas: o Rei Cinza – um terrível assassino de ladrões que está causando terror entre os súditos de Capa Barsavi, o qual os levará por uma senda de sangue, morte, ruína e destruição até um difícil, amargo e dramático desfecho.

Locke Lamora é também conhecido como o Espinho de Camorr. Um personagem mítico, envolto em lenda, mistério e mentiras, como ele próprio. Além do mais, Lamora é mestre dos disfarces, como um verdadeiro camaleão. Ator nato, diga-se bem. De combate ele quase não sabe nada, por isso conta com o braço forte de Jean Tannen, um sujeito parrudo que tem como arma duas machadinhas que ele batizou de Irmãs Malvadas. Os irmãos Sanza são gênios da prestidigitação e ótimos cozinheiros, além de bons falsários. E o jovem Pulga, de 11 anos, é o mascote do time, além de “rato de esgoto”, gatuno ligeiro e ótimo olheiro.  

Os golpes que Lamora aplica são somente o pano de fundo para ancorar, ou cimentar, a trama principal do livro. Além do desenvolvimento dos Nobres Vigaristas, nós vamos ficar conhecendo o lado sombrio e violento de Camorr. Roubar e trapacear não é tudo o que se sustenta em As Mentiras de Locke Lamora. Há momentos de lirismo e até cômicos no livro, além de aventura e ação em doses certas, mas o cerne da história é o mistério que gradativamente recai sobre Camorr, cujo nome é Rei Cinza. Esse é o lado mais tenebroso da história, cheia de traições, assassinatos violentos e uma trama diabólica e arrepiante que ameaça a existência dos próprios Nobres Vigaristas

5- CONTINUIDADE: 
Ao terminar As Mentiras de Locke Lamora você não precisa se preocupar com a continuidade da mesma em Marés de Sangue, o próximo livro da série. Isso porque a trama central desse livro encerra-se aqui. Os personagens principais darão sequência numa nova trama no segundo livro da série, mas a históeria central será outra. Claro que Scott Lynch, assim como outros autores já o fizeram, em outros tipos de séries, conectará alguns acontecimentos no segundo livro com personagens ou eventos do primeiro livro. Mas é só. Maré de Sangue trará uma nova aventura para os Nobres Vigaristas, e essa eu não pretendo perder de jeito nenhum. Aliás, já a estou aguardando ansiosamente.

E o mais importante de tudo: Se os pontos que apontei acima não são suficientes para convencê-lo a ler esse ótimo livro, talvez esse último argumento o faça: As Mentiras de Locke Lamora é um dos romances de fantasia mais original e interessante já publicado nos últimos anos. Iguala-se as grandes obras do gênero e não fica nada a dever para nenhuma delas. Além do quê, assim que o livro foi publicado, a Warner Bros. comprou os direitos autorais da série sem ao menos saber se o primeiro livro faria qualquer tipo de sucesso ou não. Quem sabe, assim que a série literária esteja encerrada, tenhamos uma produção cinematográfica, ou uma série de TV.

As Mentiras de Locke Lamora é altamente recomendado para todos os fãs de fantasia e aventura, e, ainda, para todos os que gostam de uma boa leitura original e diferente; porque Scott Lynch conseguiu criar uma história fascinante que foge do lugar comum em que, nos últimos anos, tem mergulhado esse gênero literário. Esse, sem dúvida alguma, já está entre os meus favoritos!


Comentários via Facebook

14 Comentários:

  1. Oi Livy.
    Apesar de ficar encantada com a capa desse livro, e todos os elogios e pontos positivos ressaltados aqui, além da ótima avaliação que você deu, eu não tenho vontade de fazer essa leitura porque não gosto da mitologia criada e não gosto de steampunk, esse livro não funcionaria comigo mesmo adorando aventura e fantasia.

    Beijos.
    Leituras da Paty

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  2. Eu tenho muita vontade de ler esse livro, ainda mais que vi que o segundo já está para sair. Sua resenha me encheu ainda mais de vontade de ler.
    Livro com enredo original é outro nível, né?

    M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de outubro

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  3. Amei sua resenha!!! Super apaixonada como todo bom livro merece...
    O fato de mesclar, como vc disse, ação, aventura, suspense e muito mais, o torna ainda mais atrativo para mim, adoro o quando o autor consegue envolver os leitores totalmente na história, como parece ter sido seu caso..
    Ótima resenha... bjinhuss

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  4. Ual! Você realmente gostou do livro, hein? hahah Eu confesso que nunca tinha ouvido falar da série, mas fiquei tentada a coloca-la na minha listinha. Parece ser uma história interessante, original e, sem dúvidas, gostosa de se ler. O fato de ele misturar tantos gêneros em um só livro me deixou curiosa para saber o que acontece! Beijos e tenha uma ótima semana :D
    maluquice de garota
    página no face
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  5. Já ouvi muito falar deste livro, mas não tinha lido nenhuma resenha dele ainda. Nem sinopse eu tinha lido, na verdade. Achei que era um livro velho, mas é recente, até.

    Fiquei mega curioso para lê-lo depois da sua resenha!

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  6. Dia desses que descobri que esse livro era o primeiro de uma trilogia. Mas, mesmo assim, não sabia que era um infanto juvenil. Esse com certeza é inovador. Geralmente os autores optam por falar dos conhecidos gnomos, duendes e etc. É bom saber de algo diferente nesse gênero. Quero muito ler.
    Adorei cada parte das aventuras que você descreveu. E os nomes são muito interessantes e criativos. rs.

    bjs.

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  7. Com tantos elogios assim fica impossível não desejar essa leitura! Acho que é a primeira vez que vejo falar dele, mas adorei a resenha!!

    xoxo
    http://amigadaleitora.blogspot.com.br/

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  8. Oi Livy!

    Já no começo da sua resenha foi quase impossível não sair saltitando para comprar esse livro, sabe? hahaha Fantasia é um dos meus gêneros preferidos, provavelmente eu iria amar tanto quanto você :)
    Sobre a narração: É um ponto que muda tudo, né? Por mais boa que a história seja - ou até ruim -, o modo como é narrado consegue te prender ou te soltar. Nesse caso, sei que amaria ler As Mentiras de Locke Lamora.
    Mas confesso que o que me fez querer ler desesperadamente foi a originalidade mesmo... Que bichos estranhos hahaha E eu adoro quando tem bruxas! Fiquei bem animada em saber que a Warner tem os direitos, nos mantenha atualizados viu Livy? Se sair um filme, quero muito, muito ver.

    Sua resenha está impecável como sempre, flor ♥
    Beijocas
    http://www.estantedasfadas.com.br/

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  9. Esse livro quem leu foi minha amiga e amou!!!
    Bjs
    http://eternamente-princesa.blogspot.com.br/

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  10. Oi Livy, sabe que as resenhas que li até agora falam mesmo maravilhas deste livro que infelizmente não li ainda. E agora com o segundo volume chegando, fiquei com mais vontade de ler.
    Bjs, Rose.

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  11. Olá Livy.
    Me interessei pelo livro logo no inicio da resenha.
    Deve ser um livro apaixonante.
    Eu quero.
    Amanha vou procura - lo.
    Vou ficar pobre com livros.
    As resenhas que eu leio aqui e gosto vou correndo comprar rs.
    Medo da conta do cartão rs.
    Beijos

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  12. Muito bom o livro. A estória é sensacional. Scott Linchy realmente merece respeito como escritor no gênero.....

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  13. Sensacional o livro!...Cara que estória. Scott Linchy realmente merece respeito como escritor no gênero.

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  14. Só uma pergunta para realmente esclarecer. Você disse que há romance e que é algo muito original, só queria ter confirmação sobre isso, já que achei que foi um argumento que ficou muito "no ar", pois para mim, não sei para os outros, é essencial ter romance em livro de literatura fantástica. Muito Obrigado (antecipadamente shaushuashu).

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