[Resenha] Doutor Sono, de Stephen King

24 novembro 2014
Postado por Livy

Livro cedido pela editora
ISBN: 978-85-8105-243-4
Tradução: Roberto Grey
Ano: 2014
Páginas: 475
Editora: Suma de Letras
Classificação:  ♥♥♥♥♥
() Favoritado!
Assombrado pelos habitantes do Overlook Hotel, onde passou um ano terrível de sua infância, Dan ficou à deriva por décadas, desesperado para se livrar do legado de alcoolismo e violência do pai. Finalmente, ele se instala em uma cidade de New Hampshire, onde encontra abrigo em uma comunidade do Alcoólicos Anônimos que o apoia e um emprego em uma casa de repouso, onde seu poder remanescente da iluminação fornece o conforto final para aqueles que estão morrendo. Ajudado por um gato que prevê a morte dos pacientes, ele se torna o “Doutor Sono”. Então Dan conhece Abra Stone, uma menina com um dom espetacular, a iluminação mais forte que já se viu. Ela desperta os demônios de seu passado e Dan se vê envolvido em uma batalha pela alma e sobrevivência dela.

"Será que escrevi o livro com insegurança? Podem acreditar que sim. O Iluminado é um desses romances que as pessoas sempre mencionam (com Salem, O cemitério e It – A Coisa) quando discutem sobre qual de meus livros realmente as deixou apavoradas. Além disso, é claro, há o filme de Stanley Kubrick, que muita gente parece recordar – por motivos que nunca cheguei a compreender – como um dos filmes mais aterrorizantes que já viram. (Se você viu o filme, mas não leu o livro, repare só que Doutor Sono segue este último, que é, na minha opinião, a verdadeira história da família Torrance)" ~ Trecho extraído da Nota do Autor, págs. 473/474.

Bom, eu quis iniciar essa resenha colocando esse parágrafo inicial no qual King deixa bem claro aos seus fãs que ele não reconhece a história do filme O Iluminado, de Stanley Kubrick (1980), como legítima saga dos Torrance. Portanto, dissociando os dois, se você quer ler Doutor Sono, obrigatoriamente, leia o livro O Iluminado. E não adianta assistir o filme achando que assim pode ler Doutor Sono sem perda de continuidade da narrativa, pois os acontecimentos narrados no filme são baseados no livro e não expressam fielmente as ideias do autor. Portanto, faça um favor a si mesmo, leia O Iluminado que é, a meu ver, a obra-prima de Stephen King. Na sequência, Doutor Sono. E ponto. E sim, O Iluminado é aterrorizante.

Doutor Sono traz Danny Torrance de volta, mais de trinta anos depois dos acontecimentos narrados em O Iluminado (1977). Agora Dan Torrance, um homem maduro e alcoólatra com quase cinquenta anos, falido e atormentado moral e espiritualmente pelos acontecimentos do passado: o alcoolismo e as explosões de temperamento do pai, sua frustação por não conseguir firmar-se como escritor, o emprego temporário no Hotel Overlook, os acontecimentos que culminaram na maior experiência paranormal do menino Danny, então com oito anos. Ele e a mãe, Wendy, escaparam da ruína do hotel amaldiçoado, e da queda de John Torrance, por muito pouco. A experiência traumática trouxe para a vida de Danny um grande amigo na pessoa de Richard “Dick” Hallorann, o cozinheiro chefe do hotel que, assim como o menino, também é um Iluminado. Amizade essa que eles compartilharam por muitos anos.

Agora encontramos Dan Torrance assombrado pelos fantasmas de Overlook. Entre eles, a mulher do quarto 217. Argh! Não é para menos que o pobre coitado bebe. Eu, no lugar dele, teria enlouquecido. Mas, seja como for, Dan é um Iluminado. Há muitos como ele, claro, Hallorann era um também, apesar de um poder mais fraco. Dan sempre foi o mais forte de todos, o mais poderoso dos Iluminados. Até agora. E ele não perdeu o rebolado, só ficou mais velho e destreinado. A bebida o arrastou pelas sarjetas dos Estados Unidos, afogando os seus pesadelos e visões recorrente em litros de alcoolismo. Então ele acorda  um dia num apartamento imundo. Uma mulher ao lado. Danie. Uma viciada em cocaína que ele conheceu em uma de suas noites de embriaguez. Ela tem um filho. No caso dela, claro, é como se não tivesse. A partir desse ponto, quando Dan vai embora e deixa Danie e o filho para trás, a vida dele começa a se dissociar do passado, dos funestos acontecimentos de Overlook e passa, gradativamente, a desenvolver a sina do Doutor Sono.

O legal nessa parte é que Danie e seu filho, a meu ver, são uma iconografia de Wendy e Danny. Stephen King cria aqui um efeito de transição entre o primeiro livro e este segundo. Você lendo vai perceber, porque Dan é o pai, John Torrance. E aí vem a pergunta que King faz nas entrelinhas (induzindo-nos a fazê-la, obviamente): e se John Torrance, ao invés de ter aceito o emprego no Hotel Overlook, simplesmente, tivesse ido curtir a sua bebedeira em outro lugar, e ter deixado Wendy e o pequeno Danny a própria sorte? Bom, King pinta um quadro triste e trágico para essa possibilidade, ao destinar Danie e seu filho, depois da partida de Dan. Ou seja, talvez a ida ao Hotel Overlook não tenha sido o pior que poderia ter acontecido a Wendy e Danny.

Mas não pense que Dan vai se livrar de Overlook assim tão facilmente. Ele fugiu; correu para longe, mas andou em círculos. Overlook, a sua sombra, jamais esqueceu o que ele fez. Agora que Dan está tentando colocar seu traseiro em um banco e se apegar a um canto, eis que o passado volta na forma de Abra e O Verdadeiro Nó.

Abra é uma menina Iluminada. Assim como Danny, ela é poderosa, muito poderosa. Tanto ou mais do que ele foi. Ainda com seis meses de vida ela faz o seu primeiro contato psíquico com ele. E ao longo dos anos, este contato irá se fortalecer e estreitar gradativamente. Enquanto isso, O Verdadeiro Nó se aproxima. Rose, A Cartola, é a líder de um grupo "cigano", "nômade", "itinerante" de jovens e idosos que atravessam o país de costa à costa, em trailers modernos. São ricos, excêntricos, e possuem algo que os tornam diferentes de nós outros. Eles são imortais. Nós somos os camponeses; os Iluminados, as presas. Eles se alimentam do "vapor" que as crianças iluminadas exalam, no ato da morte. Só que antes delas morrerem, num círculo de orgia ritualística, as crianças são torturadas brutalmente. Pode-se dizer que eles são vampiros de almas iluminadas. Agora O Verdadeiro Nó está vindo atrás de Abra Stone, o maior poder que eles já viram em quantidade de vapor. E a única pessoa que pode ajudá-la contra essa gente diabólica é o Doutor Sono: nosso Dan Torrance.

É claro que Stephen King introduz outros personagens na trama, Personagens ricos em emoção tanto quanto ele sabe construir melhor do que qualquer outro. Particularmente, amei o velho Billy, o doutor John Dalton e a Momo, Cocetta. Os integrantes do Verdadeiro Nó nem precisa dizer, né: odiei cada um deles, do começo ao fim, e Rose é a mais odiosa. Mas, a despeito da antipatia que cada um deles exerceram sobre mim, todos estão muito bem caracterizados e com personalidades únicas. Em alguns momentos eu cheguei a sentir pena da situação de um e de outro em particular. Porém, não me deixei iludir. Afinal de contas, eles matam crianças inocentes para se alimentarem. E vem fazendo isso há muito, mas muito tempo mesmo!

Bom, e quanto ao terror. Tem? Afinal de contas, Doutor Sono é herdeiro de um dos livros mais assombrosos já escrito até hoje, e o melhor trabalho de King. Sim, tem! Como eu disse lá atrás, King faz uma separação das vidas pregressas e atuais de Dan Torrance, e para isso ele usa muitas aparições e lembranças de Overlook. Depois disso, o terror fantasmagórico cai diretamente na paranormalidade de Dan, Abra e de Rose. O que vamos ter daí para frente é uma luta psíquica entre esses três personagens. Mas não pense que fica só nisso. Não Stephen King não seria o rei do terror se tudo se resumisse só nisso, não é mesmo? Então, espere por ótimos momentos de susto no decorrer da trama.

Mas não é só de terror que Doutor Sono é feito. Por conta do seu emprego em um asilo, Dan Torrance cuida de pacientes idosos, que estão ali aguardando o momento de partir. Dan, com seu dom especial, com o tempo, acaba se envolvendo com o processo de morte dessas pessoas e, natural e gradativamente, passa a ajudá-las a fazer a "passagem". Confesso que foram partes bonitas, singelas e humanas. Stephen King, aqui, demonstra que ele não só sabe escrever sobre coisas medonhas, assombrosas e diabólicas. Ele também é um escritor humano, sensível e genial. Amei Doutor Sono. Dan Torrance pode ter sido um alcoólatra e ter se desvirtuado e perdido pelos caminhos da vida, mas ele prova que dentro dele brilha uma luz muito, ainda, muito poderosa. A luz... do Iluminado.

Sim. Ele podia ajudar. Era seu sacramento, tinha sido criado para aquilo. Estava tudo quieto agora em Rivington House, muito quieto mesmo. Em algum lugar ali perto, uma porta se abria. Haviam chegado à fronteira. Fred Carling levantou os olhos para ele, perguntando-se o quê.  Mas era tão simples.
- Basta você dormir.
(não me deixe)
- Não – disse Dan. - Estou aqui. Vou ficar aqui até que você durma.
Ele pegou a mão de Carling nas suas. E sorriu.
- Até que você durma – disse.

Vale lembrar que Stephen King já foi alcoólatra e drogado e esteve a beira da morte quando sofreu um grave acidente de carro. Seus livros, em sua grande maioria, possuem personagens que foram construídos com as experiências de vida do autor, vindo de uma infância pobre e de muita luta de superação pessoal para chegar onde ele chegou. Por esse motivo, os livros dele são escritos com muita paixão e personalidade. Não é para menos que ele é o autor vivo mais publicado, republicado, lido, relido e que teve, praticamente todos os seus livros transformados em filmes, seriados e miniséries de TV de todos os tempos.

Ler Stephen King é uma experiência única. Recomendo muito!

Comentários via Facebook

13 Comentários:

  1. Cara, sou muito doido pra ler algo do Sthephen King. Amei sua resenha.

    http://criativare-leitura.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Tô numa onda de comprar livros do King...
    Até hoje só lembro de ter lido O cemitério (e sou doida nele).
    Os que quero pra ontem são O Iluminado, Doutor Sono, It e Sob a redoma.
    Não é a toa que é um King mesmo haha
    Beijo!
    Duas Leitoras

    ResponderExcluir
  3. Oi, Livy!
    Quero muito ler esse livro, mas preciso ler O Iluminado antes!
    Então, eu gostou muito da escrita do Stephen King, principalmente quando dá pra perceber que ele tá usando elementos da vida dele na obra! Vc já leu a série A Torre Negra? Em um livro da série, dá pra ver como esse acidente marcou ele, já que ele usa sua própria pessoa como personagem, e a situação se passa no tempo do acidente! Achei incrível!
    =D

    http://osdragoesdefogo.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  4. Nem vou te dizer oi, para poder dizer: que resenha UAU! Sério, essa foi a melhor palavra que achei. Até eu que sou uma medrosa assumida e nunca quis ler nada do autor, estou curiosa em relação a este livro. Fiquei com uma vontade imensa de lê-lo.
    Juro que eu não sabia que o autor tinha sido alcoólatra, isso dá um quê a mais às suas obras, né? Saber que ele tem experiência própria...
    Super beijos <3
    http://livros-cores.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. Não sabia desse passado do Stephen King.

    Ótimo post!

    gotasdexp.blogspot.com

    ResponderExcluir
  6. Oi, vi esse livro numa Saraiva está semana, e a tua resenha ficou muito boa.Estou lendo Duma Key, mas já li A Torre Negra, O Iluminado, A Coisa, Salem e vários outros do King, o cara é genial. Tou reassistindo o filme apenas para recordar alguns detalhes, depois mergulhador no "Doutor Sono".

    ResponderExcluir
  7. Oi, vi esse livro numa Saraiva está semana, e a tua resenha ficou muito boa.Estou lendo Duma Key, mas já li A Torre Negra, O Iluminado, A Coisa, Salem e vários outros do King, o cara é genial. Tou reassistindo o filme apenas para recordar alguns detalhes, depois mergulhador no "Doutor Sono".

    ResponderExcluir
  8. Muito boa sua resenha, estou lendo o Doutor Sono (no começo ainda) e não li o iluminado, só assisti ao filme que na minha opinião é o melhor filme de terror. Não estou tendo dificuldades em acompanhar Doutor Sono por não ter lido o Iluminado, mas também sei que Kubrick mudou tudo. Tem uma passagem interessante em Doutor Sono quando ele menciona Charlie Manx, este é um personagem de um outro livro chamado Nosferatu, que é um carro luxuoso, que o autor é filho de Stephen King, Joe Hill, que também se passa em Hampshire. Interessante né?
    Grande abraço e muito obrigado pela resenha
    Sandro Falsetti.

    ResponderExcluir
  9. Boa resenha, os livros são realmente bons, só um adendo na história do Iluminado o velhinho(Dany)rsrs tem 5 amos quase 6.

    ResponderExcluir

Veja os antigos!

Banner Publicidada – rodapé

Todos os textos, fotos e resenhas publicados são produzidos por e de uso exclusivo de No Mundo dos Livros. Exceto quando alguma matéria se baseia/inspira em alguma fonte, a mesma será sempre citada. Por isso, por favor, não copie nenhuma postagem sem a devida autorização.

Desenvolvimento com por