[Resenha] Passarinho, de Crystal Chan

19 janeiro 2015
Postado por Livy



Livro cedido pela editora
ISBN: 9788580575354 
Tradução: Thaís Paiva
Ano: 2014
Páginas: 224
Editora: Intrínseca
Classificação: ♥♥♥♥
O avô de Joia parou de falar no dia em que matou o irmão dela. O menino se chamava John, e achava que tinha asas. Subia e saltava do alto de qualquer coisa, até ganhar do avô o apelido de Passarinho. Joia não teve a chance de conhecê-lo, pois Passarinho se jogou do penhasco bem no dia em que ela nasceu. Ainda assim, por muito tempo ela viveu à sombra de suas asas. Agora, aos doze anos, Joia mora em uma casa tomada por silêncio e segredos. Os pais culpam o avô pela tragédia do passado, atribuem a ele a má sorte da família. Joia tem certeza de que nunca será tão amada quanto o irmão, até que ela conhece um garoto misterioso no alto de uma árvore. Um garoto que também se chama John. O avô está convencido de que esse novo amigo é um duppy — um espírito maldoso —, mas Joia sabe que isso não é verdade. E talvez em John esteja a chave para quebrar a maldição que recaiu sobre sua família desde que Passarinho morreu.

Passarinho é um livro que traz uma carga emocional e dramática bem densa, mas ao mesmo tempo tem uma leveza e sutileza que tornam o livro gostoso e amenizam um tanto do drama. Eu particularmente gostei muito e foi bem diferente de livros do gênero que já li.

Joia é uma garota de 12 anos solitária, que vive em Caledonia, Estados Unidos. Ela é solitária porque não tem amigos e sua família vive de certa forma isolada, devido à descendência jamaicana e espanhola, costumes e crenças. Mas ela é realmente solitária pelo fato de que o dia em que nasceu foi marcado por uma tragédia: seu irmão, John, morreu.

O garotinho, apelidado pelo avô de Passarinho, se jogou de um penhasco próximo achando que podia voar. Desde então a dor que tomou a família de Joia não deu espaço para que a garota tivesse a atenção que gostaria ou merecia. Seu avô nunca mais falou depois daquele dia, misteriosamente perdendo a voz e a vontade de fazer tantas outras coisas das quais gostava, e por isso Joia nem ao menos o conhece direito, e nunca ouviu o som de sua voz.

Sua mãe e seu pai também vivem envoltos na dor da perda, e seu pai culpa o avô de Joia, por ter apelidado o menino de Passarinho e assim ter enfurecido um duppy (espírito maldoso na crença jamaicana) que convenceu John a pular do penhasco. A mãe de Joia também não sorri mais, e quando a dor a domina é tão aparente e palpável que é como se ela se trancasse dentro de si mesma revivendo a dor. E assim Joia não tem nada, nem ninguém que parece realmente a amar. A não ser o penhasco. Sim, o mesmo penhasco do qual Passarinho pulou. É justamente ali que Joia dá suas escapulidas e passa horas e horas sentindo a natureza, conversando com as pedras, enterrando seixos como se enterrasse suas preocupações e anseios. É ali que ela fez um círculo de pedra para cada ano que completa, onde comemora seu aniversário. É ali que ela aprendeu a querer um dia ser geóloga. É ali que ela se sente amada.

O sol se esgueirava aos pouquinhos por cima das montanhas, ao leste. Parei à beira do círculo, tirei os sapatos e entrei. A terra estava solta e fria, sussurrando sob meus pés. Encarei o sol nascente e levantei os braços, como se estivesse contornando aquela bola incandescente da terra até o céu. Lá estava eu, cercada de pedras, no centro do universo. E tudo - do leito do rio aos picos do penhasco de calcário, até mesmo o céu iluminado - me observava. Pág. 17

Uma noite, em que não conseguia dormir, Joia saiu escondida para escalar sua árvore preferida. Mas para sua surpresa alguém já estava ali. Era John, um garoto negro, da sua idade, que queria ser astronauta, observando as estrelas. Na sua árvore! Apesar da invasão, eles acabam gostando um do outro imediatamente, e uma amizade começa a surgir exatamente naquela noite. Dividindo experiências, JohnJoia vão mudar a vida um do outro para sempre!

Olhei para ele na mesma hora. Um amigo. De alguma forma, essa palavra derreteu a escuridão de sentimentos confusos em meu peito. Posso não ser capaz de contar à mamãe que quero ser geóloga, nem ao papai sobre as visitas ao penhasco, e também posso não levantar muito a mão na escola para falar, mas com John - John sabia tudo sobre mim. Como um amigo deveria saber. Pág. 80

Sabe, este é um livro difícil de resenhar sem querer contar toda a história. E ao mesmo tempo seria difícil de contá-la pois há tanto sentimento, pensamentos e emoção no livro que fica complicado transpor em palavras. O bom mesmo é sentir tudo isto lendo o livro.

Passarinho aborda de forma muito sensível diversos assuntos, como: perda; luto; morte; tristeza; solidão; diferentes crençascoresculturas; etc. O luto que a família de Joia enfrenta se reflete na atenção que dão para ela. Além de que no decorrer do livro há tantos conflitos entre eles, ressaltando ainda mais a divergência de crenças - como o pai de Joia, por exemplo, que acredita que duppys estão aos montes no penhasco, e também o avô de Joia acreditando que John é um duppy.

Mas o que mais gostei é que, apesar da carga dramática do livro, ele é leve e muito gostoso de ler. E como pode isso? Pode porque uma das principais mensagens da história, além das citadas acima, é o amor e a amizade. O amor que supera o luto; que supera as diferenças inter-raciais e culturais; que supera o tempo; que preenche espaços e que supera qualquer dificuldade. A amizade  que chega de mansinho, despretensiosamente, e ganha espaço; que não vê e/ou põe defeitos; que não tem hora nem lugar; que ameniza as agruras da vida.

Eu amei a narrativa de Crystal Chan que é simples, direta e tão cheia de sutilezas, e que tornou o livro delicioso de ler. Com uma narrativa em primeira pessoa - do ponto de vista de Joia - também gostei muito do modo como são descritos os movimentos, formas e nuances da natureza. E adorei o desenvolvimento da história, o modo como ela conduziu a vida de Joia, sua família, e John. Assim como gostei muito de Joia, que é muito madura para uma garota de 12 anos, já que na maior parte do tempo tem que se virar sozinha. E tive raiva pela negligência dos pais com relação aos sentimentos de Joia, apesar de não terem exatamente esta intenção. Mas acima de tudo o modo como Joia e sua família superam todas as suas dificuldades é espetacular.

Também adorei o desenvolvimento da amizade de JoiaJohn, que transforma a ambos e que traz significados imensos para a vida dos dois, assim como muda tudo ao redor. Gostei do modo como Joia é ligada à terra e natureza e John ao céu e universo. Eles trazem mensagens tão bonitas ao decorrer do livro, com esta amizade, que é impossível não se emocionar. A família de Joia também será afetada de várias maneiras por esta amizade. E também me senti comovida com a sombra de Passarinho que no fundo ainda está em todo lugar, assim como está em Joia, mesmo que ela não o tenha conhecido.

Como diz papai, não existem coincidências na vida - o que não passa de um jeito elegante de dizer que, por mais misterioso, insano ou impossível que seja, o que tiver que ser, será. E acho que ele está certo. Pág. 13

É difícil de verdade descrever o quanto um livro é bom ou te tocou com sua mensagem, quando gostamos tanto dele. O que posso dizer é que Passarinho é destes tipos de livro - singelo, belo e puro - para ler e guardar no coração.

Aprendi, naquele momento, que corações não usam palavras para falar, ao contrário do que dizem os filmes e as músicas. Acho que precisam de muito mais espaço. Pág. 161

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1 Comentários:

  1. Gostei da resenha Livy. O livro parece ser profundo e dotado de muita sensibilidade. Quero lê-lo, com certeza! Beijo!

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