[Resenha] Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.

31 janeiro 2015
Postado por Livy

Um Cântico Para Leibowitz
Livro cedido pela editora
ISBN: 9788576571926
Tradução: Maria Sílvia Mourão Netto
Ano: 2014
Páginas: 400
Editora: Aleph
Classificação: ♥♥♥♥
Após ter sido quase aniquilada por um holocausto nuclear, a humanidade mergulha em desolação e obscurantismo. Os anos de loucura e violência que se seguiram ao Dilúvio de Fogo arrasaram o conhecimento acumulado por milênios. A ciência, causadora de todos os males, só encontrará abrigo na Ordem Albertina de São Leibowitz, cujos monges se dedicam a recolher e preservar os vestígios de uma cultura agora esquecida. Seiscentos anos depois da catástrofe, na aridez do deserto de Utah, o inusitado encontro de um jovem noviço com um velho peregrino guarda uma surpreendente descoberta, um elo frágil com o século 20. Cobrindo mil e oitocentos anos de história futura, "Um cântico para Leibowitz" narra a perturbadora epopeia de uma ordem religiosa para salvar o saber humano. Marco da literatura distópica e pós-apocalíptica, vencedor do prêmio Hugo de 1961, este clássico atemporal é considerado uma das obras de ficção científica mais importantes de seu tempo.

O mais original romance de ficção científica que li nos últimos tempos. Um Cântico Para Leibowitz é dividido em três partes: Fiat Homo, Fiat Lux, Fiat Voluntas Tua. Cada parte do livro é distinta uma da outra e possui seus próprios personagens. Mas apesar disso, a trama, como um todo, se completa com a leitura das partes, subdividida em muitos capítulos. Desta forma, a narrativa está interconectada por um pano de fundo comum em cada tomo, que é o pós-holocausto nuclear

O mundo devastado por uma guerra nuclear retrocedeu para a Idade das Trevas. Os sobreviventes se reorganizam da melhor forma possível e, traumatizados com o quase fim da espécie humana, empenham-se na Simplificação; passam a destruir livros e toda e qualquer tecnologia remanescente. Pessoas letradas são caçadas e mortas. Eles chamam a si mesmo de "simplórios". A religião que sobrevive ao cataclismo é a católica, e 600 anos após o "Dilúvio de Fogo" os mosteiros proliferam para tentar preservar a espécie. Issac Edward Leibowitz funda a Ordem Albertina de Leibowitz. Os monges que vivem nessa abadia dedicam-se a encontrar e preservar livros raros e de vital importância cultural. Eles chamam a sua biblioteca de Memorabilia

Como cada tomo está separado por um período longo de vários séculos, vamos encontrar novos personagens e, consequentemente, mudanças significativas na humanidade do pós-apocalipse nuclear. Em Fiat Homo, temos a humanidade reduzida aos primórdios do surgimento do cristianismo, em que as seitas cristãs se propagavam pela Europa e alimentavam, com o surgimento das ordens monásticas, a única fonte cultural da época medieval. Depois, em Fiat Lux, assim como ocorreu com o Renascentismo, que aboliu a Era das Trevas e ensaiou os primeiros passos para a Era Moderna, eis que, além da Memorabilia de Leibowitz, temos também o surgimento de universidades como o Collegiun, onde os estudiosos buscam redescobrir a ciência perdida. Por fim, em Fiat Voluntas Tua, muitos séculos depois, encontramos uma civilização mais moderna e preocupada com o cientificismo, novamente. A energia nuclear é redescoberta e novas armas são criadas. O mundo está dividido em nações beligerantes e imperialistas, e a ameaça de um novo Dilúvio de Fogo é constante. 

Os irmãos de Leibowitz tentam canonizar o beato e fundador da ordem, numa disputa de interesses travados na Nova Roma. Nesse contexto, surge o irmão Francis, um noviço que ainda não se conscientizou inteiramente das suas vocações monásticas. Por isso ele faz uma peregrinação ao deserto, em jejum, para encontrar-se. Aí ele vai descobrir um personagem enigmático e uma caixa contendo livros do pré-dilúvio de fogo. Esses livros serão alvo de interesse da alta cúria de Roma, e toda a trama dessa primeira parte vai girar em torno disso, numa narrativa bem descontraída e, em alguns momentos, cômica. 

Alguns séculos depois, já na segunda parte do livro, os personagens centrais serão mestre Tadeo e o abade Paulo. E o ponto alto é o debate, quase eterno, dos dois. Tadeo pertence ao Collegium. Ele é a favor do avanço tecnológico, do conhecimento capaz de aprimorar o mundo; Paulo é mais conservador, devoto fervoroso das tradições antigas e religiosas. Mas o avanço tecnológico se evidencia até mesmo na abadia, quando um dos irmãos cria um dínamo capaz de produzir eletricidade e abolir as velas da abadia. O que demonstra que a redescoberta de antigas tecnologias é inevitável, e o mundo, e sua humanidade, se prepara para um grande renascimento. 

No tomo final, Zerchi, abade da ordem, é o personagem central da trama. Com o avanço tecnológico, as guerras se espalham e a ameaça nuclear torna-se uma constante. A Memorabilia precisa ser salva e um plano é posto em prática para que todo o acervo intelectual da ordem seja preservada e salva. É uma corrida contra o tempo e contra a loucura dos governantes, e da própria humanidade em vias de extinção total. 

Um Cântico Para Leibowitz foi o único livro escrito publicado por Walter Miller. 45 anos ele ainda continua tão jovem e atual como na ocasião em que foi escrito. É considerado um dos 10 livros de ficção científica de leitura indispensável; e já foi reeditado inúmeras vezes em todo o mundo. É uma obra-prima da literatura Sci-Fi de pós-apocalipse. Provavelmente, senão com certeza absoluta, o mais original e impressionante romance pós-apocalipse já escrito até hoje. 

Me admira que, dada a sua importância cultural, o mesmo ainda não tenha sido descoberto pelo cinema norte-americano. Uma lástima, sem dúvida alguma. E no auge da Guerra Fria, no início da década de 1960, quando os mísseis soviéticos em Cuba causaram uma comoção em Washington que quase levou o mundo a uma guerra termonuclear, e, três anos depois, à morte de do presidente JFK, Walter Miller ousou com seu Um Cântico Para Leibowitz, mostrar ao mundo o que poderia vir a ser um futuro tão sombrio e pavoroso quanto o que estava acontecendo em Cuba na década seguinte a publicação do livro. 

A obra foi inicialmente publicada em forma de contos nos anos de 1955, 1956 e 1957 pela revista The Magazine Fantasy and Science Fiction, e posteriormente reunidos num único livro em 1959. Na década de 1980, Walter Miller começou a trabalhar numa continuação para Leibowitz. Não conseguiu terminá-la. A morte de sua esposa o abalou profundamente. Ele delegou a tarefa de concluir o livro ao amigo Tony Bisson. Miller suicidou-se em 9 de janeiro de 1996. um ano depois da sua morte, Saint Leibowitz and the Wild Horse Woman foi publicado. 

Miller explorou conceitos antagônicos em seu livro, como religião e ciência; fé e descrença; política e genocídio. Temas impactantes na época em que o livro foi publicado, quando o mundo enfrentava a disputa de duas potências globais. De um lado, os Estados Unidos: capitalismo, democracia, liberdade, fé, Deus, riqueza e sonhos; do outro lado, a extinta União Soviética: socialismo, totalitarismo, repressão cultural, descrença, ateísmo, miséria e beligerância. E Walter Miller, que lutou na Segunda Guerra Mundial, soube absorver esses elementos e transpô-los de forma bem sutil e marcante em seu livro.

O livro é fantástico. Um romance indispensável a qualquer bom leitor, ainda mais os aficionados por ficção científica. E nessa reedição da Editora Aleph traz, ainda, um glossário caprichado de vários termos  e palavras em latim utilizados pelo autor no livro. Essa nova edição da Aleph tem um ótimo acabamento gráfico. A capa é muito sombria e emblemática. Cercada de simbologia, arremete fielmente ao livro. Reparem que o monge está de cabeça para baixo, mas o crânio humano que ele segura nas mãos não está. O simbolismo é óbvio, não? Fica a dica! Boa leitura! 

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2 Comentários:

  1. OI, indiquei seu blog pra uma tag http://leitorinas.blogspot.com.br/2015/02/novidade-o-leitorinas-foi-indicado-pelo.html

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  2. Eu nunca tinha ouvido falar desse livro e fiquei curiosíssima. Me parece que algumas comparações do futuro pós-apocalíptico de Miller com nosso passado são baseadas em ideias já em descarte pela história (como essa coisa da Idade Média ser a Era das Trevas, que eu acho furada), mas é impressionante como, em geral, obras escritas há muito tempo sobre o futuro da Terra continuam completamente atuais. Ah, e já que você gostou desse livro, vou te indicar Não Verás País Nenhum, do Ignácio de Loyola Brandão. Foi escrito em 1981, mas, assim como no caso de Um Cântico Para Leibowitz, poderia facilmente ter sido escrito ano passado. Enfim, dica anotada!

    The Fat Unicorn

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