[Resenha] Dá-me os Teus Olhos, de Torsten Pettersson

13 fevereiro 2015
Postado por Livy

Livro enviado pela editora para resenha
ISBN: 978-85-8032-043-5
Tradução: Jaime Bernardes
Ano: 2014
Páginas: 364
Editora: Claridade
Classificação: ♥♥♥

Uma mulher está a caminho de casa numa noite de outono. Alguém se aproxima por trás dela. No crepúsculo, ela é encontrada estrangulada e nua, num caminho do parque, os olhos foram extirpados e a letra “A” marcada com arranhões no seu ventre. O caso desafia o experiente comissário criminalista Harald Lindmark e a sua nova colega Sonia Alder, que nos Estados Unidos se especializou em assassinatos em série. Os dois ainda continuavam sem pistas, quando foi encontrado um novo cadáver ao qual também faltavam os olhos. Será que existe um assassino em série na cidade?

Primeiramente, o livro chamou minha atenção pela capa. Com toda franqueza, é uma das mais apavorantes que eu já vi até agora. A floresta, o olho vermelho e ensanguentado, como um ciclope fantasmagórico... É de tirar o sono. Dentro, o livro teve o mesmo capricho visual que se nota externamente. A Editora Claridade fez um ótimo trabalho editorial e gráfico. O livro é dividido em cinco tomos: O Garfo, A Cruz, O Gato, A Corda e A Mochila, com inúmeros capítulos. Em cada tomo, manchas de sangue pontuam a mudança de ato. A gramatura do papel e o tamanho das letras estão ótimos, também. Tanto no verso da capa quanto no da contracapa, há silhuetas de galhos de árvores desfolhadas, o que realça ainda mais o clima tétrico do livro.

Do meu ponto de vista, não considero Dá-me os Teus Olhos como um thriller policial de suspense. A meu ver, ele está mais para um romance policial clássico. Aliás, ele tem um clima de filme policial dos anos 1980, o que é facilmente notado ao longo da leitura por conta da forma narrativa escolhida pelo autor.

Torsten criou um romance policial bem original e diferente. Ele se utiliza de várias formas de narração para nos aproximar do assassino e da investigação policial. O livro começa com a narrativa em primeira pessoa, sob a ótica do assassino. Ele se intitula "Eu". No capítulo seguinte, temos a visão narrativa na ótica do comissário de polícia Harald Lindmark, também narrada em primeira pessoa. Já no terceiro capítulo, a visão é completamente diferente dos dois anteriores. Os detetives que estão investigando o primeiro crime, sob a chefia de Harald, encontram-se numa sala de reunião, cujas conversações estão sendo gravadas. É a transcrição dessa gravação que nós lemos. Por isso, tem-se apenas os diálogos de cada participante. Ou seja, nada de "ele disse, ela coçou o nariz e redarguiu, ou ele se acomodou melhor no assento ao dizer...". Não, apenas parênteses, entre os diálogos, onde são mencionados apenas: ruídos indicam que os participantes mudam de posição... pausa curta... ruido de papéis folheando, etc. E assim vai.

Em determinados momentos, a ótica narrativa que é dividida entre Harald e o assassino muda para os relatos de pessoas envolvidas com os assassinatos, obtidos pela investigação. Esses relatos são lidos por Harald, porém a ótica narrativa está na primeira pessoa, sob a visão de quem escreveu o relato, como uma espécie de diário. Dessa forma, Torsten também nos dá a conhecer o ponto de vista da trama através dos olhos de outros personagens que possuem influência direta ou indireta nos acontecimentos narrados. E esses relatos, ou diários, acontecem várias vezes ao longo do livro, tomando boa parte da narrativa. Além disso, também temos as transcrições de interrogatórios gravados, como nas reuniões, em forma de diálogos.

Os personagens são variadíssimos. Torsten não se limita a contar a história de um policial de carreira e seu nêmesis. Ele abre um leque enorme de personagens que desfilam diante dos nossos olhos trazendo novos detalhes sobre as suas vidas e suas implicações nos fatos investigados pela equipe de Harald. Alguns desses personagens são bem interessantes, como Nadya, Eric e Lennart. Praticamente eles dão vida ao romance.

Uma outra coisa que vale ressaltar aqui, sobre a narrativa do autor, é que ela não privilegia esse ou aquele personagem em particular. Penso que Torsten não quer que nos afeiçoemos a um determinado personagem, como acontece na maioria dos romances, em que a carga emocional e empatia fica centralizada no protagonista. Aqui, não encontrei nenhum. Torsten criou personagens humanos e verdadeiros, cheios de fraquezas e vícios, tão comuns quanto as pessoas que encontramos em nosso dia a dia a caminho do trabalho. Isso, de certa forma, empresta um toque de realismo ao romance.

Quanto a investigação propriamente dita, já que se trata de um romance policial, ela também foge ao ordinário e comum desse gênero. Ao invés de mostrar os detetives nas cenas dos crimes, levantando provas, interrogando testemunhas ou seguindo pistas que possam levar ao suposto criminoso, temos Harald e sua equipe enfiados em salas discutindo sobre as provas encontradas, analisando os relatórios da perícia e tentando levantar o perfil do assassino. Eles conversam e discutem o caso quase que exaustivamente. Cada um dos detetives expõem a sua opinião e convicção sobre o caso, e isso torna a investigação ainda mais interessante, e conflitante, também.

Dá-me os Teus Olhos é um livro com uma história bem interessante. Os crimes obedecem a uma sistemática brutal e sádica, que deixa Harald e sua equipe em polvorosa, e os mesmos são descritos em detalhes minuciosos de arrepiar. A forma narrativa com que Torsten nos mostra a trama é muito interessante, também. Gostei muito dessa forma em que ele nos apresenta múltiplos pontos de vistas, narrados através de diversos estilos.

Quanto às narrativas em forma de relatos e diários, pessoalmente, eu os achei um pouco enfadonhos. Isso porque os personagens desses diários/relatos iniciam a narrativa desde quando eram crianças. Sinceramente, eu não vi a relevância nisso, mas, seja como for, está lá e, de alguma forma, Torsten viu a necessidade de incerí-los no contexto. E só quando se chega a fase adulta dos mesmos, a leitura dos ditos relatos fica mais interessante. Da minha parte, gostei em especial do relato de Nadya. À medida que nos avizinhamos do término da leitura, Torsten nos revela o criminoso com um desfecho surpreendente.

Dá-me os Teus Olhos é um bom livro Tem uma boa narrativa, bem diferenciada e original. As mortes são brutais e a alternância entre os pontos de vista aguçam a nossa curiosidade do começo ao fim. É um livro que vale a leitura, porém sem a pretensão de ser o melhor thriller policial já lido. De um modo geral, tirando algumas partes cansativas, gostei do livro.

Comentários via Facebook

3 Comentários:

  1. Oi Livy!

    Pelo q disse realmente parece ser um livro único. As vezes essas alternâncias de narrativas me deixam tonta e fico me perguntando se não seria melhor deixarem o livro todo na terceira pessoa? Não sei se é o caso desse livro, mas quando passa de três narradores a leitura fica cansativa...
    Gostei muito da sua resenha.

    Bjos
    http://kelenvasconcelos.blogspot.com.br

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  2. Adorei a resenha e faz tempo que estou querendo ler este livro. To precisando de uma leitura mais assim esse mês kk Brigado pela indicação (:, e é mesmo essa capa chama a atenção dw qualquer um, kkk adorei essa sinopse desde quando eu bati os olhos nela,kkkkk

    Dá Uma P-assadinha Por Lá: http://ospapa-livros.blogspot.com.br/

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  3. A editora é muito ruim, o livro tem vários erros de português e de tradução (tem frases sem sentido). A história em si é interessante.

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