[Resenha] Mar da Tranquilidade, de Katja Millay

02 março 2015
Postado por Livy

Livro cedido pela editora para resenha
ISBN: 9788580413250
Tradução: Carolina Alfaro
Ano: 2014
Páginas: 368
Editora: Arqueiro
Classificação: ♥♥♥
Nastya Kashnikov foi privada daquilo que mais amava e perdeu sua voz e a própria identidade. Agora, dois anos e meio depois, ela se muda para outra cidade, determinada a manter seu passado em segredo e a não deixar ninguém se aproximar. Mas seus planos vão por água abaixo quando encontra um garoto que parece tão antissocial quanto ela. É como se Josh Bennett tivesse um campo de força ao seu redor. Ninguém se aproxima dele, e isso faz com que Nastya fique intrigada, inexplicavelmente atraída por ele. A história de Josh não é segredo para ninguém. Todas as pessoas que ele amou foram arrancadas prematuramente de sua vida. Agora, aos 17 anos, não restou ninguém. Quando o seu nome é sinônimo de morte, é natural que todos o deixem em paz. Todos menos seu melhor amigo e Nastya, que aos poucos vai se introduzindo em todos os aspectos de sua vida. À medida que a inegável atração entre os dois fica mais forte, Josh começa a questionar se algum dia descobrirá os segredos que Nastya esconde – ou se é isso mesmo que ele quer.

Mar da Tranquilidade é o livro de estreia de Katja Millay, e traz uma história com muitas facetas. De início não imaginava que fosse gostar tanto do livro, muito mais do que esperava. Aliás, não sabia o que esperar do livro de forma geral, pois quando comecei a leitura achei que ela iria se arrastar infinitamente de forma monótona e sem graça até o final. Me enganei, e nem imaginava que iria me emocionar de forma tão distinta com esta história tocante e envolvente.

Nastya tinha 15 anos quando perdeu tudo o que mais amava; quando, há dois anos atrás, morreu. Morreu, não no sentido figurado, mas literalmente, quando todos os seus sonhos foram destruídos e quando sua vida mudou drasticamente. E quando ela perdeu sua voz, pois não havia nada que ela pudesse dizer. Agora, com 17 anos, ela continua não falando com ninguém, e se muda de cidade e vai morar junto com sua tia. Nova cidade, nova escola. Mas não uma nova vida, ou novos amigos. Ela não quer nada disso. Tudo o que ela quer é manter seu passado para trás, atrás das roupas curtas e pretas, e da maquiagem escura que esconde seu rosto. Ela não quer ter amigos, não quer que ninguém se aproxime dela, não quer que ninguém goste ou se apaixone por ela. Não quer que sintam pena, compaixão, solidariedade, ou que tenham qualquer sentimento por ela. Ela prefere ser ninguém, que todos falam mal e apontam o dedo por todos os motivos errados, do que por todos os motivos certos.

Por um momento, me sinto uma sobrevivente em um mundo pós-apocalíptico olhando por uma janela e imaginando uma parte da minha vida que já não existe. Nastya, pág. 112

Josh, também com 17 anos, é um rapaz independente e emancipado, que vive só depois de ter perdido todas as pessoas que amava e o amavam. Cada uma, ao longo dos anos, lhe foram arrancadas de sua vida sem que ele tivesse chance alguma, sem que ele tivesse a oportunidade de ter uma família e que tudo fosse diferente. Só, ele parece ter um campo de força que o envolve na escola e todos parecem ter medo ou respeitá-lo e não se aproximam. O único que continua ali, sendo seu amigo, é Drew o cara mais sacana da escola. Ele tem a fama de ser galinha e de quebrar corações, e não está nem aí para isso. Seu humor é contagiante e viciante, e ele alegra qualquer ambiente, mesmo sendo um idiota.

Nastya, tenta fingir que não vê Josh ali, todo enigmático e atraente. Mas para ela é impossível não se sentir curiosa a cerca dele, e a cada dia que passa na escola ela começa a reparar em suas atitudes e em como ele parece esconder muito mais do que mostra na superfície. Josh também se sente igualmente curioso com relação à Nastya e sua mudez, assim como sua personalidade fria e distante, escondida por maquiagem e roupas escuras. Até o dia em que Nastya aparece em sua casa, na porta de sua garagem - onde ele constrói móveis de madeira -, sem maquiagem e sem as roupas escuras. O que ela veio fazer ali? Não foi algo aleatório, foi o destino, e aos poucos ambos se envolvem em uma estranha relação, cotidianamente e confortavelmente.

Cada capítulo do livro é alternado entre Nastya e Josh, em primeira pessoa, não necessariamente seguido um do outro, tudo dependendo do momento e importância que a visão de cada um terá sobre a história. A cada capítulo a relação deles cresce de algo surreal para algo natural, mesmo sendo estranho. E também temos a oportunidade de conhecê-los melhor, pouco a pouco. Ambos estão quebrados, perdidos, solitários. E mesmo que se relacionem, e que a amizade e atração deles cresça, nada que os envolva é normal, mas é precioso. Eles precisam um do outro, mas não querem depender um do outro. Eles anseiam por mais, mas não querem ser amados. O passado de ambos pesa não somente em seus ombros, mas nos nossos ombros. É impossível ficar imune à gama de emoções que eles nos despertam ao longo da leitura.

Nem tenho tempo de me preparar, porque, assim que entro, ela está lá, de pé na cozinha. Passei semanas tentando não olhar para ela. Vê-la agora me despedaça, me rasga em pedaços e me costura de volta, todo torto. Josh, pág. 316

E, como já era de se esperar, não são perfeitos. Mar da Tranquilidade não fala de um amor lindo e perfeito, com duas pessoas perfeitas e uma história perfeita. Não! Fala de duas pessoas que precisam de salvação, mas não podem ser salvas pelo outro e sim por si mesmas. Fala de escolhas, das boas e das ruins. Fala das dores, do sofrimento, da angústia e do medo que eles sentem. Ambos se escondem de algo, mas principalmente Nastya foge de um passado do qual ela não consegue fugir e que a atormenta constantemente. Você pode até ficar com raiva de suas atitudes ao ler o livro, mas tem que entender que ela faz o que faz por querer fugir de si mesma, por querer se esconder da dor que isso lhe traz. Por odiar o que se tornou, e por odiar tudo o que perdeu. E ela escolheu não falar, não por não ter o que dizer, mas por não ter motivos para dizer. Ela guarda tudo para si, e tem motivos para isso.

O lance dela é fugir. O meu é me esconder. Josh, pág. 186

Josh também me provocou muitos sentimentos, e sem dúvida mostrou o quanto é precioso e único. Apesar de toda dor que sofreu ainda muito jovem, e apesar de não gostar de chamar atenção para si, ele é honesto e gentil, e também faz de tudo para proteger Nastya, mesmo que nem sempre saiba como ajudá-la. Aliás, tanto o mistério que envolve o passado dela, quanto outras nuances do passado e personalidade de ambos, só se revelam no momento certo, e esta jogada da autora é sensacional. Ela mantêm o mistério e me manteve cativa até o final. Também adorei Drew, que é muito mais do que aparenta ser e acabou me cativando sem que eu nem me desse conta.

Enfim, não quero nem posso falar mais do que já falei. Só sei que não posso classificar o livro como voltado para o público jovem adulto, pois apesar dos jovens protagonistas, a história vai muito além do comum em se tratando de livros do gênero, e de qualquer parâmetro. A autora ultrapassa qualquer clichê e nos presenteia com uma história mais madura e tão real que somos compelidos a sentir cada sentimento junto com os personagens, a sentir suas aflições, suas angústias, seus medos, seus sonhos, seus pesadelos. A amar e odiar. A cada página que virava meu coração inchava de alegria, e depois murchava e se partia em mil pedacinhos, para logo depois ser colado e voltar a bater. Foi uma montanha-russa de emoções incrível! Que leitura envolvente!

O livro, assim como os personagens, não é perfeito, e acho que por isso gostei tanto da história. Apesar de alguns pontos da história terem se arrastado um pouco, principalmente o começo, no geral eu gostei bastante do livro. Sabe, é complicado porque não tem como falar da história de forma clara e objetiva, e sim sentí-la, pois se tem uma coisa que Katja conseguiu fazer muito bem, foi colocar sentimento e alma em cada linha, em cada diálogo, em cada passagem e em cada momento do livro. Me vi transbordando de ansiedade, ansiando por alívio, por respostas. Ansiando, não por um final feliz, mas por segundas chances. E fui presenteada com isso e muito mais, e um final que me deixou toda boba de emoção. Mas fiquem tranquilhos, o livro tem seu drama e uma carga emocional mais pesada, mas não chega a ser exatamente triste, e sim bonito. Inclusive, tem cenas muito fofas, que me fizeram suspirar.

Mar da Tranquilidade mexeu muito comigo e me vi totalmente imersa nesta leitura e cativa por estes personagens imperfeitos e perdidos, que se encontram e transformam a vida um do outro. Este é um livro que, apesar de todas as tragédias que traz, também fala absolutamente de recomeços e segundas chances.

Agora estou tentando ver a magia dos milagres cotidianos; o fato de que meu coração continua batendo, de que consigo levantar os pés da terra para caminhar e de que há algo digno de amor. Sei que coisas ruins ainda acontecem. E às vezes ainda me pergunto por que estou viva: mas agora, quando pergunto, tenho uma resposta. Nastya.

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5 Comentários:

  1. Olá,
    Livy, estou pensando em comprar esse livro, e ia vim aqui no seu blog procurar resenha dele. Achei que já tinha feito.
    Que surpresa, vim aqui e ter a resenha dele. Adorei.
    Fico feliz também, pela resenha ter sido positiva. Agora com certeza irei comprar, sem medo.
    Ficou ótima a sua resenha.
    Beijos.

    http://www.leituradelua.com

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  2. A historia parece ser ótima!!
    Louca para ler, e meus parabéns pelo blog!!
    http://literavibe.blogspot.com

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  3. Oi Livy, escolhi este livro para uma das minhas etapas do Desafio Literário, e pelo visto tem tudo para me agradar também. A capa é linda né?
    Bjs, Rose

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  4. Amei o livro todo, do início ao fim!! Me senti na estória, respirei fundo várias vezes, e queria que tivesse continuidade. Muito bom!!!

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  5. Amei o livro todo, do início ao fim!! Me senti na estória, respirei fundo várias vezes, e queria que tivesse continuidade. Muito bom!!!

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