[Resenha] Proibido, de Tabitha Suzuma

15 março 2015
Postado por Livy

Livro cedido pela editora para resenha
ISBN: 9788565859363
Tradução: Heloísa Leal
Ano: 2014
Páginas: 304
Editora: Valentina
Classificação: ♥♥♥
Ela é doce, sensível e extremamente sofrida: tem dezesseis anos, mas a maturidade de uma mulher marcada pelas provações e privações da pobreza, o pulso forte e a têmpera de quem cria os irmãos menores como filhos há anos, e só uma pessoa conhece a mágoa e a abnegação que se escondem por trás de seus tristes olhos azuis. Ele é brilhante, generoso e altamente responsável: tem dezessete anos, mas a fibra e o senso de dever de um pai de família, lutando contra tudo e contra todos para mantê-la unida, e só uma pessoa conhece a grandeza e a força de caráter que se escondem por trás daqueles intensos olhos verdes. Eles são irmão e irmã. Mas será que o mundo receberá de braços abertos aqueles que ousaram violar um de seus mais arraigados tabus? E você, receberia? Com extrema sutileza psicológica e sensibilidade poética, cenas de inesquecível beleza visual e diálogos de porte dramatúrgico, Suzuma tece uma tapeçaria visceralmente humana, fazendo pouco a pouco aflorar dos fios simples do quotidiano um assombroso mito eterno em toda a sua riqueza, mistério e profundidade.

Visceral. Se posso definir o livro com uma palavra, se posso afirmar o que ele proporciona, se posso dizer o que ele traz, de qualquer forma acabarei chegando no mesmo ponto: Proibido é um romance visceral. Cada linha, cada página, cada sentimento é tão intenso e profundo que destrói de uma forma sem volta, sem remendo. Não sei nem como começar esta resenha, nem sei como dizer o que senti, nem sei como me expressar de forma clara e objetiva, e fazê-los entender tudo o que vivi lendo este livro da Tabitha Suzuma. Mas sei que independente do que eu falarei aqui, jamais irei conseguir expressar com clareza.


Uma coisa é certa, assim como diz a frase de autor anônimo logo no início do livro, você pode até tentar fechar os olhos para a história que o livro traz, mas não pode fechar o coração para o que ele lhe fará sentir.

Proibido me causou diversas reações e me trouxe muitas emoções no decorrer da leitura. E, ao contrário do que faço em muitas resenhas, mostrando um pouquinho da história do livro em uma espécie de introdução para o que você pode encontrar ao lê-lo e para conhecer um pouco mais da trama, decidi que irei falar mais das impressões, sentimentos e percepções que tive do livro.

Maya, com dezesseis anos, Lochan, com dezessete anos, são extremamente carismáticos, sofridos, e maduros além da medida para sua idade. Ele, é o alicerce da família, e ela é o alicerce que o sustenta. Eles tiveram que, muito cedo, amadurecer e tomar a frente de todas as obrigações que pais teriam que tomar para cuidar dos irmãos. O pai, os abandonou ainda pequenos; a mãe uma alcoólatra inveterada, só quer saber de farra e de "namorar", larga Maya e Lochan com os pequenos e vai cuidar da própria vida, ficando semanas sem dar as caras, deixando claro que nunca quis ter filho algum. Os abandona à própria sorte. Com medo de serem entregues ao Conselho Tutelar, Maya e Lochan fazem de tudo para manter a família - ou o que restou dela - unida, a todo e qualquer preço, pois eles são tudo o que têm.

Com isso, Lochan e Maya ficam sobrecarregados com a escola e tantas tarefas do dia a dia da casa, além de ter que cuidarem de uma menina de 5 anos, um menino de 9 anos e um de 14 anos. Cada um com suas vontades, anseios, medos, problemas, e até mesmo rebeldia ou rancor reprimidos ou não. Lochan também enfrenta problemas sociais, não consegue se comunicar com ninguém além de Maya, e os irmãos, com quem se sente à vontade. Mas fora de casa ele é retraído e arredio. Maya, se dá bem socialmente mas é apenas em casa, ao lado de Lochan, que ela se sente bem. Ambos são o apoio um do outro, e os únicos e verdadeiros amigos que já tiveram a vida inteira. Não é fácil, dá para você sequer imaginar o quão difícil é viver uma vida dessas? Passando por dificuldades,por responsabilidades adiantadas demais para suas idades, por dores que não deveriam sentir com tão tenra idade? Abandonados pelos pais que os deveriam amar e proteger?

Antes que houvesse qualquer coisa, havia Lochan. Quando olho para o passado, com seus dezesseis anos e meio, Lochan sempre esteve nele. Indo para a escola ao meu lado, me empurrando num carrinho de supermercado a toda a velocidade por um estacionamento vazio, vindo me socorrer no pátio da escola quando provoquei uma rebelião por chamar a queridinha da turma de "burra". [...] Agora sei que nem sempre Lochan vai estar aqui, que não vai poder me proteger eternamente. Maya, pág. 28.

Sou fã de livros do gênero drama, e adoro quando um livro me dá "um tapa na cara", mas para começar tenho que ser honesta ao dizer que não foi uma leitura fácil, e não foi ao todo uma leitura agradável. E este fato não se deve ao assunto polêmico que conduz a história, mas sim por todos os demais acontecimentos do livro que me incomodaram muito. A esta altura você já deve ter uma noção do que o livro fala. E se não sabe, já deve ter desconfiado. Mas não estou aqui para rotular o livro, e também não acho certo rotulá-lo dizendo que ele aborda este tema e só. Ou rotulá-lo com uma palavra. Proibido está muito além de apenas abordar um tema polêmico e esmiúça-lo até dizer chega, pelo contrário, aborda sim o tema mas de uma forma muito sensível e tocante. Aliás, Tabitha Suzuma vai muito além do amor proibido e traz muitas outras críticas sociais e existenciais.

Dito isso, vou tentar fazê-los entender o porque minha relação com Proibido foi de extremo amor e ódio, oscilando entre um sentimento e outro. Em primeiro lugar, já deixo claro que para ler este livro deve-se ter a mente e o coração abertos para tudo o que irá absorver e experimentar. Eu fiz isso, li o livro com todo o meu coração e minha mente aberta, e posso dizer que aproveitei a leitura ao seu máximo. Mas, como disse, não é uma leitura fácil, é difícil digerí-la, absorvê-la, e terminar a leitura sem perder a compostura.

Suzuma nasceu para escrever, isso posso dizer com toda a certeza. Sem dúvidas, ela conseguiu não apenas criar seus personagens, mas convencer-me de que eles realmente existiam. Eu pude sentí-los vibrando, sofrendo, existindo por entre meus dedos, a cada página que virava, e devorava. Isso tornou a leitura muito mais envolvente e muito mais difícil de largar. Havia momentos em que eu queria parar de ler, em que a leitura estava tão pesada que eu não aguentava prosseguir, mas tinha que continuar, porque também sentia a dor e sofrimento que eles estavam sentindo no momento. E este é o motivo principal pelo qual eu continuei lendo, e lendo, e lendo sem parar, até chegar ao amargo e devastador final.

O modo como Suzuma construiu seus personagens foi sensacional, e de forma única ela consegue introduzir-nos em seu mundo, nos fazer sentir seus medos e anseios, a torcer por eles, a sofrer com eles. E foi de forma tão natural que me embrenhei ao seu cotidiano, aos seus sentimentos, que quando menos esperava estava completamente e irremediavelmente apaixonada. É com uma sutileza imensa que vi o amor de Maya e Lochan desabrochar, de forma inocente e inevitável. Foi aí, justamente aí que a autora me ganhou. Em nenhum momento eu poderia imaginar de que forma ela iria introduzir um romance tão impossível e inimaginável em seu livro, mas ela conseguiu fazer isto de uma forma tão natural e sofrida, que para mim foi impossível não torcer e ansiar junto com eles. Foi da dor, do sofrimento, do apoio e amizade que cresciam a cada ano, que ambos se viram às voltas com uma amor puro, verdadeiro e totalmente proibido, mas tão real quanto o ato de respirar.

Até aqui, este foi o lado que me fez me desfazer em amor. Todos os sentimentos que Suzuma passou com sua narrativa, com sua história, com seus personagens. Mas, como disse, minha relação foi de amor e ódio. O que tornou a leitura pesada para mim, não foi o amor proibido, mas sim todo o drama existencial de ambos e da família. A história vai se desenvolvendo de uma forma tão pesada, tão triste, tão densa, que além do amor que ia crescendo dentro de mim, uma raiva imensa ia ganhando forma, até que terminei o livro não aos prantos, como imaginei que terminaria, mas com uma raiva tão grande e tão intensa que me deu vontade sim de chorar, mas de total e completa impotência. Como a própria autora disse, em nenhum momento a intenção dela é dizer que o incesto é certo, incentivá-lo ou qualquer coisa do gênero. Tanto que o modo como ela conduz o assunto já o condena por si só. Mas, ao meu ver, é muito mais condenável a atitude da mãe deles na história, do que a deles. Acho que a real intenção de Suzuma é abrir nossos olhos para o preconceito de uma forma geral, para refletirmos sobre o que realmente é certo e errado, pelo que realmente vale a pena lutar ou não, independente de qualquer rótulo ou limitação.

A história de Suzuma é tocante, emocionante, mas com um quê de Shakespeariana. É tão dramática, tão triste, tão inevitável, que trouxe para mim, mais sofrimento do que sentimentos bons. Claro, a história teria que ser assim, entendo todos os motivos para que assim fosse, mas não me conformo. Me vi com tanta raiva por tudo o que via se desenrolando, e que não tinha volta ou solução, que terminei o livro justamente sentindo que o amei e o odiei, e não sei como lidar com isso. Não odiei pelo tema que a autora abordou, mas sim pela forma como tudo foi acontecendo. O final me deixou tão revoltada, não apenas por ser trágico, mas por não trazer nenhuma luz ou esperança. No final, não sai imune, tive meu coração partido por Tabitha Suzuma.

Quero ficar arranhando a ferida, arrancando a casca, atormentando a pele dilacerada. Lochan, pág. 112.

Então, para resumir, Proibido é um livro doído, triste e incrivelmente tocante. De todos os livros do gênero que já li não é um dos meus favoritos ou um dos melhores, mas sem dúvida alguma é um dos mais devastadores que já li. Ou seja, ao que se propõe, é um ótimo livro do gênero. Foi ótimo ler Proibido e sair do conforto literário, me aventurando em um livro tão intenso. Tabitha Suzuma me surpreendeu com sua narrativa maravilhosa e extremamente real e sensível. Quer se arriscar a ler Proibido? Prepare os lencinhos, ou o saco de boxe (para socar algo depois que terminar a leitura), e prepare-se, pois você não será o mesmo depois de ler. 

Comentários via Facebook

7 Comentários:

  1. Olá,
    Livy, estava aguardando a sua resenha desse livro.
    Assim como você, não sabia como iniciar a minha, confesso que foi complicado fazer a resenha desse livro.
    Realmente dá vontade socar a parede, pelo rumo que a história vai tomando. Dá vontade pegar a mãe deles e dá uma sacudida, eu a detestei, tenho raiva dela até hoje.
    Realmente Tabitha nasceu para escrever, é uma história tão incrível, tão dramática e ao mesmo tempo tão linda.
    A sua resenha, ficou perfeita, realmente o que eu estava esperando.
    Beijos.

    http://www.leituradelua.com

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  2. Essa historia é realmente linda e emociomate tambem quando fiz a resenha não sabia o que disse, esse livro desperta no leitor emoções... Simplesmente amei o livro e a construção dos personagens de Suzuma e sobre como ela conta essa historia. Com certeza meu mais novo livro favorito.
    Ótima resenha.

    bjs
    http://garotas--xxi.blogspot.com.br/

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  3. Oi Livy! Este livro é muito forte, e não só por abordar o incesto, mas por todos os demais problemas. Eu fiquei chocada com os transtornos do Loch, com o descaso da mãe em relação aos filhos e com aquele final. Que final terrível, como eu desejei que fosse outro. Eu não apoio uma relação assim, mas não consegui condenar neste caso, pois os dois estavam tão perdidos e desamparados, tão sem noção de certo e errado, que a própria vida os levou aquilo. Bela resenha!

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  4. Gostei da resenha Livy. Só ouço ótimas críticas a respeito deste livro e com os seus comentários a respeito também não foi diferente. Beijo!

    www.newsnessa.com

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  5. Olá Livy!
    Em toda resenha que li todos disseram que o livro mexe muito com as pessoas, que é intenso. Ainda não e nem sei se vou, principalmente por causa dessa tensão, desse drama.
    Imagino que os dois personagens tenham o peso do mundo nas costas e apenas um ao outro para apoiar. Não irei negar que a ideia do incesto mexe comigo e incomoda, ao mesmo tempo que consigo imaginar um pouco o lado deles.
    Vamos ver se irei ler.

    Beijos,
    Bibliotecando com a Cris

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  6. Esse é um livro que eu quero muito ler. Vi tanta gente falando dele e tanta gente chocada que eu queria ler para ver o que eu acho. Uma amiga leu e não gostou do final, outra só achou o livro ok mas todas elogiaram muito a escrita e alguns acontecimentos. Gosto de dramas e daqueles livros de cortar os pulsos então acho que vou acabar gostando desse, hahaha.

    Ele está na minha listinha de leituras e eu não vejo a hora de comprar. <333

    Beijos!
    http://www.prateleiracolorida.com.br/

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  7. Livy!... Você conseguiu exprimir tudo o que eu senti lendo esse livro em palavras. Fez algo que eu não consegui fazer na minha própria resenha. Queria ter tido a sua habilidade e sensibilidade para poder fazer um texto tão bom que, ao meu ver, tem o poder de convencer qualquer um a ler este livro, gostando ou não de temas tristes - o que era a minha intenção. Parabéns, com toda a sinceridade possível! Sua escrita é incrível. Confesso que pretendia ler somente por alto sua resenha, não esperava muito pelas experiências que tive com as outras que li sobre Proibido, mas me surpreendi! De qualquer forma, deixarei aqui o link para a minha resenha/artigo, caso você se interesse em ler: https://litterarumm.wordpress.com/2016/01/20/tabu-em-proibido-de-tabitha-suzuma/ Um beijo!

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