[Resenha] A Evolução de Calpúrnia Tate, de Jacqueline Kelly

28 abril 2015
Postado por Livy

Livro cedido pela editora para resenha

ISBN: 9788567028415
Tradução: Elisa Nazarian
Ano: 2014
Páginas: 384
Editora: Única
Classificação: ♥♥♥ 
Calpúrnia Tate tem 11 anos em 1899, quando pergunta o porquê de os gafanhotos amarelos em seu quintal serem tão maiores do que os verdes... Com uma pequena ajuda de seu notoriamente mal-humorado avô, um ávido naturalista, ela descobre que os gafanhotos verdes são mais fáceis de ser vistos contra a grama amarela e, por isso, são mortos antes que possam ficar maiores. Por gostar de explorar a natureza ao seu redor, Callie acaba criando um relacionamento próximo com seu avô enquanto enfrenta os desafios de viver com seis irmãos e se depara com as dificuldades de ser uma garota na virada do século. Em seu livro de estreia, Jacqueline Kelly habilmente traz Callie e sua família para a vida, capturando o crescimento de uma jovem com sensibilidade e humor.

A Evolução de Calpúrnia Tate é um livro que me surpreendeu e me envolveu de diversas formas. Sua história, enganadoramente singela, traz tanta riqueza consigo que é impossível não se maravilhar com a trajetória de Calpúrnia.

Calpúrnia Virgínia Tate, mais conhecida como Callie Vee, é uma garota de 11 anos, vivendo o ano de 1899. Única menina dentre sete filhos, tem seis irmãos, três mais novos - Travis, Sul Ross e o bebê Jim Browie -, e três irmãos mais velhos - Harry, Sam Houston e Lamar. Naquele ano, Callie e sua família tinham que suportar o denso calor do Texas. Imagine que situação difícil para ela? Dia após dia segue de forma maçante, com um mormaço sufocante, e dias sem fim.

Calpúrnia sempre foi uma garota muito inteligente e observadora. Por exemplo, ela sabia exatamente como conseguir minhocas para pescar onde aparentemente não existia mais nenhuma. Mas a vida da garota vai começar a mudar, quando, de repente, seu irmão Harry - seu irmão preferido e mais querido -, lhe dá de presente uma caderneta de couro vermelho. E lhe afirmou: "Você é uma naturalista em formação". Mas, o que era, exatamente, uma naturalista? Calpúrnia não tinha ideia, mas decidiu que naquele verão ela seria uma.

Ela começa a fazer seus registros na caderneta e a observar a vida ao seu redor, avidamente. Até que um dia vê uma espécie de gafanhoto bem maior que o natural, e com uma cor amarela. Se perguntando o motivo de ele ser diferente, mas não conseguindo chegar a uma conclusão. Calpúrnia sempre teve curiosidade à cerca de seu avô, Walter Tate, um homem estranho e reservado, que se trancava em seu "laboratório" - na verdade um barracão nos fundos da casa - ou na biblioteca. Sempre com seus "experimentos" e mistério. Mas, assim como os irmãos, nunca teve coragem de se aproximar. Até que, decidida - apesar de com um certo receio -, ela procura seu avô para que a ajude com a questão dos gafanhotos. E para sua surpresa ele não a mordeu! A partir daí Calpúrnia e o Capitão Tate - seu avô aparentemente rabugento -, vão começar uma relação de companheirismo e amizade, fundamentada pelo interesse mútuo e genuíno na extraordinária vida que os cerca, que nenhum dos dois poderia imaginar!

- Não tenho tantos dias pelas frente - ele disse, enquanto nos sentávamos na biblioteca. - Por que eu ia querer gastá-los com problemas de drenagem e contas em atraso? Preciso prestar atenção nas horas que tenho e usar cada uma delas com sabedoria. Lamento não ter percebido isso até chegar aos cinquenta anos. Calpúrnia, você faria uma boa coisa se adotasse essa atitude bem mais nova. Use com cuidado cada uma das horas que lhe são dadas.

Calpúrnia, já é uma garota à frente de seu tempo, mas graças à seu avô ela acaba tendo uma nova visão do mundo. Seu horizonte se amplia para novas perspectivas e ideias, e sua paixão pela natureza, pela vida, pela ciência, por novas descobertas vai ganhando forma e força a cada dia que passa, e a cada dia que convive mais com o avô. Mas, apesar de ele ser a faísca que impulsionou a chama em Calpúrnia, a própria garota tem sede pelo novo. Uma das coisas que mais me tocou no livro foi justamente esta ligação entre ela e o tão mal compreendido avô. Toda a família o vê como um sujeito difícil e estranho, que se fecha em seu laboratório, e não quer saber de mais nada. Mas Calpúrnia vê e entende sua verdadeira essência e o que o avô representa: um homem culto, inteligente, cheio de vida e sonhos, e um naturalista cheio de ideais e paixão. Em contrapartida, ele também vê em Calpúrnia a garota inteligente que é subestimada por toda a família, principalmente pela mãe - que quer que ela aprenda as artes domésticas para garantir seu bom futuro. Ele vê todo o potencial que Calpúrnia tem.

- É impressionante o que se pode ver, apenas ficando sentado em silêncio e observando.

Outro ponto forte do livro é a riqueza histórica e cultural. A cada capítulo nos embrenhamos no cotidiano de Calpúrnia e sua família, vivenciando a época com perfeição, através da maravilhosa narrativa de Jacqueline Kelly - em seu romance de estreia. A autora traz dezenas de referências da época, como o surgimento do primeiro telefone na cidade, graças à Companhia Telefônica Bell; a primeira telefonista na cidade - algo inédito, pois uma mulher ter um trabalho como este, sendo independente e auto-suficiente, ganhando salário era algo inimaginável; A melhor máquina de vento de Chicago (sim, o ventilador); a bebida gaseificada Coca-Cola, "a bebida deliciosa e refrescante"; seu primeiro contato com um carro motorizado. O livro está repleto de ricos momentos históricos da época, inclusive, musicalmente falando. Ao decorrer do livro, adorei conhecer músicas que remetiam à época em que Calpúrnia viveu. Os rags de Scott Joplin e a música The Maple Leaf Rag. E a emocionante canção Auld Lang Syne. Aliás, recomendo, ouvir as músicas quando elas aparecem na história, pois enriquece ainda mais o momento. Também há muitas menções à Darwin e o livro A Origem das Espécies.

A história de Calpúrnia se desenvolve com o dia a dia, o cotidiano. Basicamente segue a rotina da garota entre descobertas com o avô, a escola, sua convivência com os irmãos e seu dilema com a mãe. Confesso que em alguns momentos a leitura se arrastou. Em outros fiquei um pouquinho entediada. Mas em muitos momentos me maravilhei. A trajetória de Calpúrnia é singela, mas magnífica. Apesar de ser tão jovem, e ter apenas 11 anos de idade, é uma garota forte e determinada, e sabe muito bem o que quer. É uma garota que vê além de seu tempo. Ela é uma das melhores personagens juvenis que já tive o prazer de conhecer! Sem dúvida me encantou!

Mas nem tudo são flores, claro! A mãe de Calpúrnia quer que a filha aprenda as artes domésticas - ela tem que ter aulas de piano, aprender a cozinhar, tricotar, etc -, para garantir um bom futuro e um bom marido. Esta pressão é ainda mais forte devido sua posição social. Em muitos momentos, a obrigação para com a mãe e este aprendizado, tolhe os momentos com o avô, e isso deixa Calpúrnia muito triste. Ela tem seus sonhos e ideais, sonha com um futuro diferente para si. Quer ser cientista. Uma naturalista! Quer ser alguém que faça a diferença, que faça descobertas. Quer ser independente!

Vivemos aqui, também, um ano que precede a virada do século. Onde há muita insegurança e medo com relação ao futuro, mas esperança também. Percorremos todo o ano de 1899 junto à Calpúrnia, até que a virada chega e traz consigo novas perspectivas, e muitas promessas.

Como disse, a narrativa de Jacqueline Kelly é encantadora e maravilhosa! Ela conseguiu trazer para seu livro toda uma época, e retratar muito bem todos os costumes. Sua história é muito rica em detalhes e se desenvolve praticamente sozinha. É tão natural quanto respirar e viver. Terminei o livro, inclusive, com uma pontinha de nostalgia. Tanto pela bela mensagem ao final, quanto por terminar ali minha jornada junto à Calpúrnia. Só quando terminei o livro foi que percebi o quanto me apeguei à garota e seu avô, e o quanto gostaria de continuar convivendo com eles. Aliás, seus personagens são tão fortes e verossímeis, tão reais, que me vi tentada a procurar no Google por uma Calpúrnia Tate e ver se realmente existiu e o que o futuro lhe reservou.

Terminei o livro querendo mais, e com uma pontinha de dor no peito por não saber qual seria o futuro de Calpúrnia. Mas sabe o que é melhor? O livro tem continuação. Sim! Neste caso comemoro, fiquei muito feliz ao saber que poderei continuar junto à Calpúrnia mais um pouquinho. O livro The Curious World of the Calpúrnia Tate pode ser lançado ainda este ano, mas não tem confirmação.

A Evolução de Calpúrnia Tate, como disse logo no início da resenha, é um livro engadoramente singelo. Apesar de alguns momentos de leitura mais arrastada, tem seus méritos. Tem uma história sobre o cotidiano de uma garota de 11 anos, mas é muito mais que isso. É um livro cheio da mais pura riqueza cultural. É possível vivenciar toda uma época, sentir seus cheiros e sabores, ver suas cores, de forma muito nítida. Um livro que traz uma bela mensagem de amor, de auto-descoberta, de acreditar em sonhos e ideais, de se lutar pelo que se acredita. De saber enxergar além das aparências e ver além. 

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11 Comentários:

  1. Gostei da resenha Livy. Não imaginava que o livro fosse tão intenso e confesso que me surpreendi. Beijo!

    www.newsnessa.com

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  2. Oi Livy.
    Gosto de autores assim, que conseguem passar realismo em suas histórias.
    Mas como eu evito esses desfechos que me deixam angustiadas, vou aguardar o lançamento da continuação pra conhecer Callie.

    Beijos.
    Leituras da Paty

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  3. Oi Livy!
    Estou com esse livro aqui, mas acredita que ainda não consegui ler o.O
    Que vergonha...
    Bjks!

    http://www.historias-semfim.com/

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  4. Oi, Livy!
    Tenho muita curiosidade em para ler esse livro.
    Gosto do realismo e da intensidade que o autor parece passar para os leitores.
    O livro já está na linha listinha!
    Adorei a resenha.
    Beijos

    Construindo Estante || Curta a fan page

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  5. Oi! Não conhecia este livro e achei a capa linda! Mas acho que não leria, não me interessei muito pelo enredo. Ótima resenha. :)
    beijos ♥
    nuclear--story.blogspot.com.br

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  6. Oi Livy!
    Que resenha bonita, me chamou a atenção. Não conhecia o livro, mas a capa é um encanto. Toda delicada.
    Daria uma chance a leitura sim!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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  7. Oi Livy!

    Eu já conhecia o livro e ele já estava na minha listinha. Adorei sua resenha! Eu não sabia que ia ter continuação :o Espero, pelos já leitores e pelos futuros leitores da obra como eu, que a editora lance o próximo volume ^^

    Bjs!

    Jhonatan | Leitura Silenciosa

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  8. Oie, Livy. Pela resenha, no inicio lembrei de Pollyanna, mas depois notei que ele vai além. Achei bem promissor e acho bom que tenha continuação, espero que publiquem logo.
    Letras & Versos

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  9. Apesar de nunca ter ouvido falar sobre o livro já iria me interessar absolutamente rápido rs. AMO livros de época e que capa é essa hein ? Muito linda!

    BeiJU!

    paixaodeleitora.blogspot.com

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  10. Oi Livy! Eu sempre tive vontade de conhecer esta história, mas estava precisando de uma opinião completa sobre a obra, sua resenha me fez ter uma visão maior e me encantar, não apenas pela protagonista, mas pela viagem no tempo que proporciona, é um livro que vai além dos personagens, que na verdade retrata uma época, sem dúvidas eu lerei sem medo de gostar. Linda resenha.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books


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  11. Oi, Livy

    Tinha visto a capa desse livro na livraria e já tinha ficado encantada pela ilustração linda. Que bom que o livro é tão interessante! Fiquei muito ansiosa pra ler.

    Beijos,
    Camila | www.lendoporai.com

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