[Resenha] Pequenos Deuses, de Terry Pratchett

09 maio 2015
Postado por Livy

Livro cedido pela editora para resenha
ISBN: 9788580576542
Tradução: Alexandre Mandarino 
Ano: 2015
Páginas: 305
Editora: Bertrand Brasil
Classificação: ♥♥♥ 
Religião é um assunto controverso em Discworld. Todo mundo tem sua própria opinião e até seus próprios deuses, que podem ser de todas as formas e tamanhos. Nesse ambiente tão competitivo, as divindades precisam marcar presença. E a melhor maneira de fazer isso certamente não é assumindo a forma de uma tartaruga. Nessas situações, você precisa, e rápido, de um assistente. De preferência alguém que não faça muitas perguntas... Em Pequenos Deuses, Terry Pratchett faz uso de seu ácido humor para desenvolver uma crítica mordaz à religião institucionalizada. No Discworld — mundo palco de suas dezenas de histórias de sucesso —, o deus Om percebe, ao tentar se manifestar na Terra, que ficou preso no corpo de uma pequena tartaruga. Precisará, então, contar com o auxílio do noviço Brutha para descobrir como recobrar seu poder — e a crença que lhe dá vida — ao mesmo tempo em que grandes figurões planejam uma guerra santa. Pratchett, nesta sátira em seu mundo fantástico, volta a fazer o que faz de melhor: usa a fantasia e o humor para falar da realidade. 

Adorei a capa do livro. Letras em relevo. Papel aveludado. O desenho na capa é interessante, assustador, ao mesmo tempo que satírico. Basicamente, o que encontrei nas páginas do livro. Um ótimo trabalho gráfico da Editora Bertrand do Brasil.

Para quem ainda não conhece, Discworld é uma série de fantasia criada pelo inglês Terry Pratchett, que publicou o primeiro livro da série, The Colour of Magic (A Cor da Magia) em 1983. Segundo os críticos, a série Discworld tornou-se popular e sucesso mundial em mais de 25 países, onde foi publicada e republicada nos últimos 30 anos, recebendo ótimas pontuações e elogios por satirizar o gênero fantasia e os grandes autores que exploraram o tema.

Pequenos Deuses, editado originalmente em 1992, é o décimo terceiro livro da série que, nos dias de hoje, já conta com 39 livros. A obra mais recente da série, Snuff, foi editada em 2011. Dessa imensa coleção, apenas os treze primeiros títulos foram publicados no Brasil. A série também já virou miniséries de TV, na Inglaterra, na primeira década deste século, e inspirou várias adaptações para jogos de videogame no estilo RPG (Role Playing Game), nos anos 1980/1990.

Sir Terence David John Pratchett, sempre foi apaixonado por ficção fantástica e fantasia. Seu autor de cabeceira foi J.R.R. Tolkien, que leu aos treze anos de idade. Iniciou sua carreira como escritor em 1971, com sua primeira obra intitulada: The Carpet People. Foi jornalista e assessor de imprensa, também. Além da série Discworld, Terry Pratchett também escreveu outros livros de ficção, contos e livros infantis, publicados na década de 1990.

Pequenos Deuses é o primeiro livro da série Discworld e do autor que leio. O livro me agradou muito por ser uma história diferente de tudo o que li do gênero até o momento. Adorei o estilo de Pratchett, em que ele usa diversos elementos de nossa vida social e cotidiana, como religião, política, filosofia e folclore para compor a sua trama, mesclando-os de forma bem original com elementos básicos do gênero fantasia e ficção fantástica.

Sátira, irreverência, comicidade, tragicomédia, lirismo e fatalismo são características da escrita de Pratchett em sua série. Ele usa e abusa de elementos icônicos da religião, filosofia e política do mundo antigo, como seitas, divindades, misticismo e dogmas, além de personalidades míticas, que nortearam as origens da civilização humana.

Pratchett também brinca com as palavras, além dos conceitos. Por exemplo, o personagem central da trama é Brutha, o Escolhido. Apenas ele consegue ouvir a voz do Deus OM, o Grande Deus. Veja que o nome Brutha é uma forma diferente de dizer Buda, e OM é a palavra que, no hinduísmo, significa vibração do universo, ou o conceito do Big Bang postulado pela Física Moderna, que também é o reflexo da realidade absoluta de Deus. Em outras passagens, ele menciona que há os Exquisidores e os Quisidores dentro da Quisição, que é o mais alto nível onde pode chegar um Diácono, e aí vem  inserida toda a hierarquia da Igreja Cristã. Da mesma forma, nomes como o da personagem Irmão Nhumrod, que pertence a mesma confraria de Brutha. Bem, Nimrod, para os que estudaram a Bíblia, foi o primeiro rei poderoso da Terra, descendente de Caim, que unificou os povos e mandou erigir a famosa Torre de Babel. No livro, o Grande Deus OM renasce no mundo na forma de uma tartaruga. Na mitologia Grega, Queleno é a tartaruga convidada para o casamento de Zeus com Hera; na mitologia chinesa, a Tartaruga Negra ou Guerreira surge como um dos quatro quadrantes que dividem o mundo. E existe ainda uma Praça da Lamentação - alguma referência ao Muro das Lamentações, em Israel? O deus anterior era Ur-Gilash, substituído pelo atual, OM. E aqui há outra brincadeira de Pratchett que, a meu ver, faz uma diferenciação entre os deuses de Ur, da Babilônia, da origem do mundo, com os deuses da religião hindu, da origem do universo.

E desta forma, o autor reúne todos esses elementos históricos, acrescenta outros de sua imaginação, e, misturado-os todos em um imenso caldeirão de ideias criativas, nos apresenta uma fábula irreverente e repleta de originalidade. Ler Pequenos Deuses é viajar por um universo paralelo que, pelas leis da física quântica, poderia muito bem existir numa quinta, sexta ou décima dimensão, onde, certamente, Terry Pratchett hoje está feliz revivendo em multicores todo a sua genialidade literária.

Desta forma, foi um prazer ler e conhecer esse escritor maravilhoso que soube, como ninguém, brincar com as palavras. E ele fez isso numa série que tem 39 livros. Pesquisando, encontrei uma informação de que a obra toda possui mais de 1.700 personagens. Vocês sabem o que é isso? A maioria dos autores de séries literárias de hoje não conseguem construir uma trama continuada com mais de duas dúzias de personagens, sem perder o efeito empático. Agora, imaginem compor uma série monstruosa como essa com uma quantidade incrível de personagens e manter a estrutura e o interesse do leitor do primeiro ao último livro? Poucos, certamente, se comparam a Terry Pratchett neste quesito.

Pequenos Deuses é uma obra com uma abordagem adulta, diferente de tudo que se enquadra no universo de fantasia e ficção fantástica, e diferente de tudo o que já li. Terry Pratchett, com sua deliciosa narrativa e sua criatividade muito original, não se aproveita do gênero para compor mais uma obra que tende a copiar os grandes mestres. Ele simplesmente o reinventa. E por ser diferente e inovador, Pequenos Deuses foge completamente dos padrões literários dos livros de fantasia e distopia que hoje saturam o mercado literário e carecem, lamentavelmente, de originalidade e criatividade, pois cada um parece, a cada novo lançamento, um pouco mais do mesmo.

Apesar de ser parte de uma série, li o livro tranquilamente, sem precisar ler os anteriores. Creio que cada livro traga um núcleo de personagens e histórias independentes, apesar de fazer parte do mesmo universo. Adorei o livro, e espero que a Bertrand do Brasil nos dê a oportunidade de conhecer os outros títulos dessa sensacional série de fantasia. Esse eu recomendo!

Comentários via Facebook

6 Comentários:

  1. Oi Livy!
    Não conhecia esse livro e é de 1983? ADOREI, estou numa fase de busca por clássicos.
    Obrigada pela dica, muito diferente.
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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  2. Ola!
    Pretendo ler este livro. Gostei da sua opiniao.
    Beijinhos e boas leituras. :)

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  3. Uow, quantos livros!! Haaaja criatividade. Adorei sua resenha, mas não sei se a história faz muito meu estilo :(

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Tem resenha nova no blog de "O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares", vem conferir!

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  4. Não sou muito fã desse tipo de livro, alguns eu até gosto, mas não tantos. Parece ser interessante e meu Deus: 1.700 personagens? Nossa senhora, é muita gente hahaha! Mas será que tem que ler desde o primeiro da saga ou só ler esse dá para entender tranquilamente? Como eu disse, não faz muito meu estilo, mas quem sabe eu coloco ele na listinha de "desafios literários". ;-)

    E parabéns pela sua resenha. Está muito bem escrita!

    Beijos,
    Carol
    www.pequenajornalista.com.br

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  5. Olá Livy,
    Não conhecia o livro, ouvir falar poucas vezes do autor.
    Ele realmente deve brincar com histórias e palavras. Mil e setecentos personagens não é para qualquer um.
    Adorei a resenha, parabéns. <3
    Beijos.

    http://www.leituradelua.com

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  6. Sabe, às vezes precisamos copiar alguma trecho para realizar uma pesquisa.. Se quiserem te plagiar, não é esse bloqueio que irá impedir. Blog legal.. Mas poderia ser mais simpática ;)

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