[Resenha] A Cidade & A Cidade, de China Miéville

10 agosto 2015
Postado por Livy

Livro cedido pela editora para resenha
ISBN: 9788575594131
Tradução: Fábio Fernandes
Ano de Lançamento: 2014
Número de Páginas: 292
Editora: Boitempo Editorial
Classificação: ♥♥♥♥ 
Quando o corpo de uma mulher assassinada é encontrado na decadente cidade de Beszel, em algum lugar nos confins da Europa, parece apenas mais um caso trivial para o inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Hediondos – ECH. À medida que avança a investigação, as evidências começam a apontar para conspirações muito mais estranhas e mortais do que ele poderia supor, levando-o à única metrópole na Terra tão estranha quanto a sua: Ul Qoma. As duas cidades ocupam o mesmo espaço geográfico mas constituem nações diferentes, monitoradas por um poder secreto conhecido como Brecha. Em ambas as cidades, ignorar a separação, mesmo sem querer, é considerado um delito imperdoável, mais grave do que cometer um assassinato. 

Voar para Beszel da costa leste dos EUA envolve trocar de avião ao menos uma vez, e essa é a melhor opção. É uma viagem famosamente complicada. Existem voos diretos para Beszel de Budapeste, de Skopje e, provavelmente a melhor opção para um norte-americano, de Atenas. Tecnicamente, Ul Qoma seria mais difícil para eles devido ao bloqueio, mas tudo que precisavam fazer era um pulo no Canadá e podiam viajar diretamente. Havia muito mais serviços internacionais para o Novo Lobo. - pág. 77.

Você achou difícil chegar até Beszel? Então precisa ver o quão difícil é viver numa cidade que, na realidade, são duas cidades coexistindo ao mesmo tempo no mesmo espaço geográfico. Parece loucura, né? E é. A meu ver, doideira total. Os cidadãos de Beszel e Ul Qoma possuem governos distintos, regras e culturas diferentes. Você está de um lado da rua, em Beszel e, ao atravessá-la, estar em Ul Qoma; mas não pode interagir com as pessoas desse lado da rua e muito menos usufruir do que as lojas estão oferecendo em termos de liquidação. Não é coisa de louco?

Agora, imaginem essa situação política e social onde os crimes são tratados da mesma forma. Uma polícia não pode adentrar a área restrita de outro órgão policial da outra cidade. Quando um crime aponta o assassino de outra cidade, por exemplo, existe toda uma burocracia a ser seguida para que a investigação ocorra, e se ficar provado que houve “brecha” - termo usado para indicar que um cidadão de Ul Qoma, ou de Beszel, transgrediram as regras fora de área –, então, o caso é da alçada da Brecha. Esse órgão misterioso, secreto e implacável cuida de assegurar que as regras, as normas, as leis e os espaços sejam preservados. E quando a Brecha é invocada, os seus agentes, tão invisíveis e misteriosos quanto  a própria organização, agem de forma rápida, silenciosa e implacável (pra não dizer, letal).

O Copula Hall tinha uma extensão de séculos, era uma colcha de retalhos arquitetônica definida pela Comissão de Supervisão em suas diversas encarnações históricas. Ocupava um trecho considerável de terra em ambas as cidades. Seu interior era complicado – corredores poderiam começar em grande parte totais, Beszel ou Ul Qoma, se tornar progressivamente cruzados o longo de sua extensão, com aposentos numa ou noutra cidade ao longo deles, e também números daqueles que estavam no Copula Hall somente, e das quais apenas a Comissão de Supervisão e seus órgãos eram o único governo. Diagramas legendados dos edifícios, no interior, eram bonitas mas assustadoras misturas de cores. - pág. 127

China Miéville se define como um marxista. E seu livro A Cidade & A Cidade possui raiz e influência marxista. A trama policial do livro é apenas um pano de fundo sobre o qual ele desenha e pinta um quadro puramente político de uma sociedade europeia em transformação visceral. Beszel e Ul Qoma lembram Berlim ocidental e oriental, uma mesma cidade dividida por um muro. Lembra a Coreia dividida entre o Norte, comunista, e o Sul, capitalista, separadas pela Faixa de Exclusão policiada dia e noite pelas forças militares das duas potências. Lembra as cidades do mundo em que os pobres parecem viver uma cidade diferente e fora do tempo e do espaço em que vivem os ricos; apesar de trafegarem nas mesmas ruas e lugares públicos, não coabitam lugares que são de exclusividade dos mais favorecidos socialmente.

Em seu livro, Miéville usa a ficção científica como pretexto para reinventar as cidades europeias, ou do mundo, onde culturas e classes distintas são separadas por áreas exclusivas que não podem coexistir ao mesmo tempo, pois cada qual tem seu espaço e suas regras, e quebrar esses paradigmas é agir contra os dogmas, portanto, contra a lei.

Alegoria, ficção ou realidade, A Cidade & A Cidade afronta a nossa racionalidade e nos impõem a necessidade de refletir sobre o nosso lugar no mundo e o que o outro, o que convive conosco os mesmos espaços geográficos, esperam de nós como indivíduos, ou, acima disto, como seres humanos: os limites da minha liberdade terminam onde surge a liberdade do outro.

Dentro desse contexto sociopolítico e existencialista, China Miéville desponta como um autor criativo que evoca a ficção científica e a fantasia para compor seus premiados livros, com boa aceitação de crítica e público. A Cidade & A Cidade é seu primeiro livro lançado no Brasil pela Boitempo Editorial. A editora pretende editar os outros livros do autor, um a cada ano, com lançamentos previstos a partir deste ano:  Perdido Street Station, The Scar e Iron Council.

Da minha parte, China Miéville, apesar de ser um autor cultuado na Europa e de ter recebido prêmios literários e críticas favoráveis por suas obras, não me encantou. Seu livro é bom, e está um pouco acima de regular por conta do toque de mistério que envolve a morte de uma mulher misteriosa que o investigador Tyador Borlú precisa investigar – apesar da sua contrariedade – e que prendeu minha atenção até a última página. Tirando esse aspecto, comparações com Kafka, Philp K. Dick, entre outros, não me convenceram de sua narrativa. Achei-a cansativa em muitos momentos, e exageradamente política. Muitos termos estranhos, nomes complicados, e alguns diálogos sem sentido e fora de contexto, tornaram a leitura do livro um grande exercício de abnegação e devoção à leitura. 

Comentários via Facebook

4 Comentários:

  1. Olá, Livy.
    Não conhecia o livro, mas achei a premissa inovadora e interessante. Sem falar que traz conteúdo para pensarmos sobre diversas coisas, como as diversas classes sociais e política.
    Vou querer ler, sem dúvidas.

    Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de agosto. Serão dois vencedores.

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  2. O problema de livros policiais e de mistérios e que as vezes fica cansativo demais =/ Autores como Conan Doyle sabem escrever um bom livro sem deixar você cansado =D

    http://www.refugiorustico.com.br/2015/08/livro-apaixonada-pelo-garoto-nerd.html

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  3. Nossa que louca essa história hahaha. Até me interesso, às vezes, por livros assim. Mas estou numa fase totalmente história para relaxar, sabe? E política é uma coisa que não me distrai nadinha. E que chato que a leitura não foi tão legal, mas pelo menos tem uma parte que prendeu. Menos mal. ;-)

    Beijos,
    Carol
    www.pequenajornalista.com

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  4. Oie Livy =)

    A premissa em si me pareceu meio confusa. Tipo é meio que uma mistura de livro policial, com distopia e ficção científica, pelo menos foi o que entendi lendo a sua resenhas rs...
    Acredito que seria o tipo de narrativa que me cansaria também, até por que não curto muito quando os autores enfeitam muito a história.
    Uma pena realmente ...

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary

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